Era uma daquelas noites lindas e amenas, quando os espreitadores saem de suas tocas e ficam à espreita de dedos espiando debaixo dos cobertores. Sardento e eu também ficamos com vontade de provocar alguns dedinhos.
As crianças já não tinham mais medo de nós, então fomos procurar em outro lugar. Além disso, quando você acorda crianças, elas geralmente choram, e eu sinto pena delas. Mas quando você acorda adultos, eles gritam e xingam tão bonito. E isso é uma diversão terrível.

Só que hoje, no nosso prédio, ninguém além das crianças estava dormindo. Parecia que seria uma noite muito chata. Foi então que Sardento teve uma ideia.
“Vamos organizar uma corrida”, declarou entusiasmado. “Vamos ver quem desce as escadas primeiro. A linha de chegada será na porta de entrada.”
“Certo, vamos lá. Três, dois, um. Já!”
Descemos como uma enxurrada, pulando degrau por degrau e virando nos corredores de tal forma que, às vezes, escorregávamos de barriga. Fizemos tanto barulho que as pessoas espiavam pelas portas para ver o que estava acontecendo.
Eu já estava quase no destino quando uma porta se abriu e a luz inundou o corredor. O zelador ficou parado na porta e olhou para o corredor. Imediatamente me abaixei e fiquei parado no lugar.
“Parece que uma manada de elefantes está correndo por aqui!”, gritou o zelador no corredor, achando que algumas crianças travessas estavam correndo por ali. Foi quando ele notou um tufo preto no corredor.
“Precisamos comprar um novo esfregão para a faxineira. Está caindo muito pelo. Olha só!”, disse ele, virando-se para sua esposa.
“Parece que caíram completamente, querido. Vou comprar uma nova vassoura amanhã.”
Logo em seguida, a porta felizmente se fechou. Ainda bem que não quiseram jogar fora. Disseram que é um esfregão. Aff! Corri rapidamente para a entrada, onde estabelecemos nosso objetivo. Mas Sardento já estava lá.
“Cheguei primeiro!”, vangloriava-se e pulava Sardento.
“Isso não conta, se o zelador não tivesse saído, eu teria te ultrapassado”, resmunguei.
“Então que tal uma corrida de revanche até o nosso andar?”
“Claro!”
Sardento deu a largada e duas bolas peludas dispararam para frente. Primeiro, quase colidimos debaixo das escadas. Depois, bati em um vaso e derrubei uma planta. Sardento queria zombar de mim, mas quando se virou, não olhou para onde estava correndo e bateu direto nos sapatos em cima do capacho de um apartamento. Os sapatos se espalharam para os lados e Sardento deslizou pelo corredor em cima do capacho. Parecia o Aladim no tapete mágico.
Aproveitei a situação e passei na frente dele. No quinto andar, uma vassoura que alguém esqueceu se colocou no meu caminho. Eu desviei dela elegantemente. Mas o chão tinha sido limpo recentemente (maldita Senhora Simone), então escorreguei e bati direto na porta do apartamento dela.
Aquilo fez um barulho tão alto que, por um momento, eu não sabia o que tinha acontecido. Mas então a porta se abriu, e a Senhora Simone saiu correndo e gritando. Isso me assustou, então eu saí tão rápido que me encontrei logo atrás do Sardento no quinto andar. Passei correndo pelas botas alinhadas e as derrubei.
O grito da Senhora Simone despertou o Senhor Carlos. A luz se acendeu e nós dois, os espreitadores, ficamos parados na escada. Nos encolhemos e observamos enquanto o Senhor Carlos saía correndo do apartamento de chinelos. Ele estava com tanta pressa que nem acendeu a luz. E foi assim que tropeçou em uma das botas espalhadas, escorregou no capacho e, em vez de descer as escadas, caiu sentado nelas. E, para piorar, o Senhor Carlos não parou. Ele desceu direto escorregando sentado, só parando na frente da Senhora Simone, onde uma vassoura caiu em seus braços.
Ela imediatamente parou de gritar e começou a rir muito. Sardento e eu também começamos a rir.
“O que aconteceu com você?”, perguntou à Senhora Simone.
“Achei que havia gatos selvagens correndo por aqui”, continuou rindo e enxugando as lágrimas de tanto rir. “Você é muito gentil por ter vindo me salvar. Desculpe por ter te acordado.”
“Eu ainda não estava dormindo”, disse o Senhor Carlos. “Queria te perguntar algo, mas não sabia como. Então, já que estou aqui na sua frente, querida Simone, quero te pedir em casamento.”
O Senhor Carlos tirou a vassoura de si, ajoelhou-se diante da Senhora Simone, pegou sua mão e de algum lugar do roupão tirou um anel.
“Bem, veja como os ajudamos!”, disse Sardento, observando como aqueles dois pombinhos diziam seus “sim”.
“Hum, parece que vai ter casamento!”, concordei.
“Com certeza. Espero que seja à noite. Eu adoraria um bolo de casamento assim bem grande.”
“Você está começando a ficar como o velho Hugo, Sardento. Ele também só pensa em comida.”
“E, pra terminar, quem for o último na cama é um pé fedorento e não lavado!”, falou Sardento, lembrando da corrida.
Corremos juntos, pulamos nas nossas camas e ficamos felizes com o desfecho. Afinal, toda história romântica termina com um casamento. Então, boa noite, crianças, e tomem cuidado com os capachos, vasos de flores, sapatos e vassouras. Para que vocês não acabem descendo as escadas de bunda por causa deles.