Você já teve algum sonho maluco? O Bubizinho já. Veja o sonho que ele teve, certa vez, sobre bruxas.
Havia neve por toda parte e um vento gelado soprava. Bubizinho estava no jardim em frente à sua casa, vestindo apenas um short verde e uma camiseta. Na cabeça, ele usava uma coroa de dente-de-leão, tulipas, narcisos e lilases. Mas como o frio fez as flores murcharem, parecia que ele tinha longos cabelos feitos de flores murchas.
Ao redor dele, os congeladores faziam travessuras. Os congeladores são pequenos fantasmas que aparecem apenas no inverno. Fazem pingentes de gelo, gelo nas janelas e aprontam muitas outras travessuras. Gostam de deixar as baterias dos carros congeladas, e então, de seus esconderijos, riem dos donos dos carros que não conseguem dar a partida.

Mas Bubizinho nunca tinha visto tantos congeladores em um só lugar em toda sua vida. Nunca houve tantos, nem mesmo na Casa dos Fantasmas. E então ele percebeu quem estava ali perto, verificando como os congeladores faziam geada e destruíam as flores. A irmã de Bubizinho, Dentilda! Ela estava vestida com uma cortina rasgada, que balançava ao vento assim como seu cabelo despenteado.
“Dentilda! O que você está fazendo aqui?”, gritou Bubizinho para ela.
Dentilda sorriu, revelando dentes brancos e pontiagudos como agulhas, que qualquer fantasma com dentes invejaria.
“Não sou Dentilda. Agora sou Morena, a senhora do inverno, e saia do meu caminho. Não vou tolerar a Primavera aqui! Este inverno cruelmente belo não vai acabar e ninguém poderá fazer nada a respeito!”
Naquele momento, Bubizinho sentiu como se alguém tivesse colocado seu pé no congelador. Ele olhou para baixo e viu um pequeno pedaço de gelo lambendo seu pé.
“Saia!”, gritou Bubizinho, libertando seu pé daquele pedaço de gelo.
Mas o gelo correu de volta para ele. Felizmente, havia uma pá de neve ao lado da casa, e então Bubizinho a pegou e começou a afastar os pedaços de gelo do seu caminho. Alguns ficaram na pá, seguraram-se e cuspiram neve congelada em Bubizinho. Outros apenas o xingaram.
Quando Bubizinho chegou em casa, estava congelado até os ossos. Ele foi direto para a sala de estar e se jogou no tapete felpudo perto da lareira, onde o fogo aquecia maravilhosamente.
“Ninguém me tira daqui”, prometeu Bubizinho para si mesmo. E então ele começou a sentir sono, mas foi interrompido pela chegada de sua mãe.
“Está tão frio lá fora”, lamentou sua mãe, esfregando suas mãos congeladas. “Está tão frio que nosso cachorro virou uma estátua de gelo. Parece que a Primavera está dormindo em algum lugar. Já devia estar aqui há muito tempo.”
Bubizinho ficou assustado. A Primavera estava dormindo? E o cachorro deles estava congelado?
Antes que percebesse, alguém estava batendo na porta.
“Quem é, mamãe?”, perguntou Bubizinho depois de um tempo.
“É o vizinho Vladimir. A casa dele congelou. Vou deixar ele dormir aqui.”
Vladimir entrou no quarto. De seu sobretudo, de onde normalmente pingava água, hoje pingavam pedaços de gelo. Seus pés descalços estavam azuis de frio, assim como suas mãos e seu nariz. E ele usava um gorro no lugar de seu habitual chapéu.
“Minha casa congelou. E o gelo no lago está tão grosso que não dá para quebrar. Se eu tivesse mergulhado de cabeça, como às vezes faço, teria feito um belo galo nela”, reclamou. “Este inverno vai destruir todos os meus peixes. E a Primavera só fica lá sentada no calor sem fazer nada.”
Bubizinho arregalou os olhos. A Primavera está no calor? O que há com essa Primavera?
Antes que pudesse pensar em qualquer outra coisa, seu pai, congelado, correu para a sala de estar. Ele estava segurando as calças e parecia que algo o estava machucando.
“O que aconteceu com você, papai?”, perguntou Bubizinho, levantando-se do tapete felpudo.
“Faça alguma coisa! Você tem que expulsar essa Morena, a senhora do inverno! Está tão frio lá fora que não dá nem para fazer xixi. Tudo vira picolé. Ai!”
De repente, uma luz se acendeu para Bubizinho. Ele tirou da cabeça a coroa de flores, que agora estavam tão bonitas como na primavera. Ele era a Primavera! Ele é quem tinha que fazer algo.
“Desculpa, mas eu não quero ir para o frio”, disse Bubizinho finalmente.
Todos começaram a implorar para ele. E Vladimir até lhe ofereceu seu gorro. No calor, até os pingos de gelo em suas abas derreteram, e agora ele estava sentado na poltrona, em uma poça.
“Já tem mais gente chegando”, ouviu a voz preocupada da mamãe.
Ele tentou olhar pela janela, mas estava congelada. Então, olhou para o corredor, onde a mamãe estava na porta convidando outros moradores da Casa dos Fantasmas chegando para se aquecerem e se protegerem do frio.
“Onde está a Primavera quando um fantasma precisa dela?”, resmungou o vovô Zubati. Então ele viu Bubizinho, sorriu para ele, mas em vez de dentes, tinha pedaços de gelo pontiagudos.
“A primavera nos salvará com seus encantos e expulsará o inverno. Eu acredito nisso”, dizia a mamãe.
Bubizinho teve uma ideia. “Encantos? Eu posso fazer uma magia! Isso é incrível.”
Ele imediatamente saiu para o frio. Dentilda, ou melhor, Morena, estava em cima de um monte de neve e ria de todos os fantasmas que não conseguiram se aquecer a tempo. Alguns se transformaram em estátuas de gelo, outros em bonecos de neve.
“Chega, Morena! A primavera está aqui!”, gritou Bubizinho.
“Você ousa desafiar Morena? A cruel senhora do inverno?”
“Você é um docinho de coco e não a senhora do inverno, Dentilda.” E continuou: “Abracadabra, Morena, que você vire um tronco. Vamos levá-la para fora da cidade, e dar as boas-vindas aos dias de primavera.”
Então, um vento se formou ao redor de Morena, levantou a neve no ar, girou ao seu redor e, de repente, caiu no chão diante de Bubizinho apenas um espantalho em uma vara. Parecia com aqueles espantalhos que as pessoas colocam nos campos. E em cima da pilha de neve estava Dentilda.
“Bubizinho, nossa Primavera, você me libertou! E veja! A neve está derretendo”, mostrou Dentilda.
De fato. A neve estava desaparecendo, os pingos de gelo também. Os congeladores rapidamente começaram a se enterrar nas fendas e buracos no chão para se protegerem do sol.
“E quanto à Morena?”, Bubizinho apontou para o espantalho.
“Vamos levá-la para fora da cidade e queimá-la. Para que ela não possa mais nos prejudicar”, disse seu pai, que pegou o espantalho e, seguido por outros fantasmas, levou-o para uma colina fora da cidade. Lá, juntos, os fantasmas fizeram uma fogueira e queimaram o espantalho. Enquanto isso, todos se alegravam por terem sobrevivido ao longo inverno.
Desde então, passaram a fazer isso todos os anos. Não são apenas as pessoas que acreditam que o fogo as protege de fantasmas, do frio e das bruxas. Os fantasmas também acreditam que o fogo os protegerá de tudo de ruim. Até mesmo das pessoas. Porque, juntos, os fantasmas e as pessoas não dariam certo, né? Ou será que sim?