Era um dia de aula como outro qualquer, mas hoje Bubizinho e Dentilda estavam muito mais animados para ir à escola do que de costume.
“Hoje o feiticeiro irá à escola”, contou Dentilda para a mãe, toda animadinha. “Mas espera, isso nem é o melhor. Dizem que ele veio lá da Cidade das Cabeças Assustadoras. Mas espera, isso também não é o melhor. Ele vai ensinar a gente a fazer magia.”

“Então depois você tem que me contar tudo, quando voltar da escola. E quem sabe até me mostrar uma magia”, sorriu a mãe.
“Eu vou voltar como um poderoso feiticeiro, mamãe”, declarou Bubizinho, pegando a colher de pau e balançando-a como se fosse uma varinha mágica. “Abracadabra, que a minha irmã vire uma cabra!”
“Bubizinho!”, resmungou Dentilda.
“Olha só, funcionou! Você já está com chifres!”, riu Bubizinho.
Dentilda correu apressada para o espelho. Ela não tinha nenhum chifre na cabeça.
“Bubizinho, você é um fantasma muito enjoado!”
Na escola, todos os fantasmas esperavam nas carteiras até o senhor Feiticeiro Despertador chegar. Ele já devia estar lá fazia tempo.
“Acho que ele esqueceu de colocar o despertador para tocar”, riu Bubizinho.
“Acho que é porque a Cidade das Cabeças Assustadoras fica longe”, discordou Dentilda.
“Ele é um feiticeiro, então não deve vir de ônibus, né? Era só balançar a varinha e aparecer onde quisesse”, pensou alto Bubizinho, enquanto balançava a colher de pau que pegou em casa para brincar de varinha mágica.
Mal ele acabou de falar, ouviu-se um estalo e uma fumaça apareceu bem em frente ao quadro. De dentro dela saiu o Feiticeiro Despertador. Ele vestia uma roupa clássica de feiticeiro, daquelas tipo de carnaval, tinha uma barba bem comprida e um olhar sério. Só que parecia ter esquecido a varinha, porque Bubizinho não viu nenhuma.
“Desculpem o atraso, esqueci de programar o despertador”, falou o feiticeiro. As crianças começaram a rir, principalmente Bubizinho, é claro.
Depois, o feiticeiro explicou para eles como é importante que todo monstrinho saiba alguns feitiços básicos, principalmente quando é preciso assustar alguém.
“Hoje vou ensinar pra vocês três feitiços bem importantes”, disse o feiticeiro. “Primeiro, vamos aprender como se faz uma névoa assustadora.”
“Por favor, eu sei como fazer uma névoa assustadora”, disse Adélia, levantando a mão. “Para isso, preciso de uma panela, um ovo e do meu pai. Da última vez que ele cozinhou, a gente nem conseguiu tirar a névoa de casa.”
“Nós vamos tentar uma névoa diferente, ainda mais assustadora”, riu o Feiticeiro Despertador. “Eu mesmo não sei cozinhar, tenho feitiços pra isso. Então por que eu iria aprender, se posso simplesmente fazer tudo com mágica?”
Depois, ele mostrou a magia para as crianças. Rodou a mão fechada em punho, girou sobre si mesmo, murmurou alguma coisa, soprou na mão fechada e então a abriu. Da palma subiu uma névoa branca e densa, que logo cobriu todinho o feitiço.
“E não se esqueçam de dizer as palavras mágicas: Névoa densa, névoa imensa.”
As crianças começaram a treinar. Em pouco tempo, Dentilda conseguiu fazer uma nuvenzinha de vapor.
“Isso não é nada”, torceu o nariz Michel. “Olha só pra mim.”
E começou a mexer a mão exatamente como um feiticeiro.
“Névoa feia, névoa brava!”
Da mão dele saiu uma nuvem fedorenta que tomou conta da sala inteira.
“Abram as janelas! O Michel errou a magia. Isso foi um ‘Soltanevoazeda’!” gritou o Feiticeiro, tampando o nariz.
Quando a sala ficou arejada, o Feiticeiro passou para a próxima magia.
“Como segunda magia, vou ensinar vocês a desaparecerem. Mas só por um instante, tá? Nada de fazer isso na porta da escola para não precisar estudar. Querem ver?”
O Feiticeiro Despertador girou os braços várias vezes e sussurrou:
“Sumide, sumide, sumi.”
Na mesma hora, ele desapareceu. Pouco depois, apareceu de novo.
“Eu quero ficar invisível!”, gritou Bubizinho, balançando a colher de pau com tanta força que acabou quebrando-a na carteira da escola. “Puxa, minha varinha! Com o que eu vou fazer mágica?”
“Para fazer magia, você não precisa de colher de pau nem de nenhum outro graveto”, explicou o Feiticeiro.
Bubizinho agitava os braços, repetia a fórmula mágica, mas só conseguiu que suas orelhas sumissem por um instantinho.
“Não dá.”
“Precisa treinar”, disse o Feiticeiro. “Nem os melhores feiticeiros conseguem fazer magia logo de cara. Quanto mais difícil a magia, mais vezes você precisa praticar. Talvez a última magia de hoje saia melhor para você: fazer aparecer uma florzinha na palma da mão.”
“Pra quê? Tipo, quando eu quiser assustar alguém, vou fazer aparecer uma flor? Buuuu, buuuu, dente-de-leão!”, disse Bubizinho.
“As magias não servem só para assustar as pessoas. Existem também magias legais que deixam o mundo mais bonito. Como esta aqui. Tente praticar e depois mostre para a mamãe. Você vai ver que magia isso vai fazer”, disse o Feiticeiro Despertador e logo mostrou a magia.
Estendeu a palma da mão, bateu três vezes nela com o dedo indicador da outra mão e então disse: “Florzinha!” Na mesma hora apareceu uma violeta em sua palma.
“E se eu quiser uma rosa?”, perguntou Dentilda.
“A fórmula é a mesma, só que você precisa imaginar bem essa flor.”
Quando as crianças treinaram o truque da florzinha, o Feiticeiro se despediu.
“Até logo”, disse ele, fez uma reverência, bateu o pé três vezes e desapareceu.
Dentilda correu para casa para fazer uma florzinha mágica para a mamãe. O Feiticeiro Despertador tinha razão. A mamãe ficou muito feliz com isso.
Mas Bubizinho não se interessava por fazer flores. Ele queria aprender a viajar como o feiticeiro fazia. Assim, não precisaria ir a pé nem pegar o bububus. Como será que o feiticeiro fazia isso? Ele batia o pé três vezes e sumia. Ele devia pensar no lugar onde queria aparecer.
E assim Bubizinho ficou tentando no seu quartinho sem parar, até gritava que queria aparecer no jardim, mas nada acontecia. Até que, de repente, o mundo rodopiou e ele sumiu do quarto.
“Socorro!”, dava para ouvir lá do jardim.
Dentilda correu na mesma hora para ver de onde Bubizinho estava chamando e logo o achou. Ele estava pendurado pela camiseta no topo de uma cerejeira bem alta.
“Essa sua magia não deu certo, né?”, perguntou Dentilda rindo dele. “Fica tranquilo, o papai já foi pegar a escada.”
E foi assim que Bubizinho conseguiu descer.
“Acho que você devia continuar fazendo mágica só com flores”, disse Dentilda.
“Ah, vou fazer uma aparecer no seu nariz, quer ver?” respondeu Bubizinho, tocou três vezes no próprio nariz, apontou para Dentilda e gritou: “Florzinha!”
Na mesma hora, apareceu uma florzinha de dente-de-leão no nariz dele. Dentilda caiu na risada. Bubizinho ficou todo irritado, mas pelo menos podia ficar feliz, porque não precisava se abaixar para sentir o cheirinho do dente-de-leão.
“E agora, como é que eu tiro isso? O Feiticeiro Despertador não ensinou isso pra gente!”, lamentou. Mas ele deu sorte. O pai conhecia o contrafeitiço, estalou os dedos bem na frente do nariz dele e a florzinha sumiu.
Desde então, Bubizinho nunca mais tentou nenhuma mágica complicada fora do horário das aulas. Ele só praticava o que recebia de lição de casa. Primeiro é preciso aprender o que é mais fácil, para depois conseguir fazer as maiores magias.