Inspirado em um conto popular italiano
Em uma casinha moravam três senhoras. Uma tinha sessenta e sete anos, a outra, setenta e cinco, e a terceira, noventa e quatro. A casinha delas tinha uma varandinha, de onde as três observavam as pessoas andando na rua e tudo o que acontecia na cidade.
Um dia, a mais velha, Clementina, viu um rapaz bonito passando e deixou cair um lenço de bolso da varandinha. O rapaz pegou o lenço, sentiu o cheirinho e pensou:

“Um lenço tão bonito e cheiroso só pode ter sido perdido por uma moça jovem e encantadora.”
Ele olhou ao redor, viu a varandinha, mas não viu ninguém. Então foi até a casa e bateu na porta. Uma das irmãs abriu para ele.
“Bom dia, mora alguma moça nesta casa?”, perguntou o rapaz.
“Mas é claro! Até três!”, respondeu a velha senhora.
“Eu gostaria de ver a que perdeu este lenço”, pediu o rapaz.
“Isso não será possível”, respondeu a mulher. “Aqui em casa temos o costume de que, enquanto a moça não se casar, ninguém pode vê-la.”
O rapaz ficou com aquilo na cabeça. Não parava de imaginar como a moça devia ser linda. E, sem pensar direito, acabou dizendo:
“Se é assim, então eu me caso com ela. Não tem problema eu não a ter visto. Agora vou lá contar para os meus pais que vou me casar com a dona deste lenço.”
E assim o rapaz foi pra casa e contou tudo para a mãe — que, na verdade, era a rainha, pois ele era um jovem rei.
A mãe ouviu tudo, mas balançou a cabeça:
“Meu querido, pense bem. Você nem viu essa moça. E se estiverem te enganando?”
“Já dei minha palavra. E a palavra do rei precisa ser cumprida”, respondeu ele.
Mesmo assim, o rei não se aguentou e voltou à casa da futura noiva. Quando bateu na porta, foi novamente atendido pela velha senhora com quem falara antes.
“Me diga, por favor, a senhora é a avó da minha escolhida?”, perguntou o rei.
“Ora, claro. Eu sou a avó dela”, respondeu a velhinha.
“Vovó, deixa de teimosia e mostra pelo menos um dedinho da moça pra mim, por favor”, pediu o rei.
“Agora não posso. Mas venha amanhã”, respondeu a avó.
O rei se despediu e foi embora. Passou a noite toda sem conseguir dormir, ansioso para ver o dedinho da sua linda noiva. Enquanto isso, as três velhinhas fizeram um dedo de mentira com uma luva e uma unha postiça. Logo depois do amanhecer, o rei chegou à casa e bateu na porta, impaciente.
“Senhora, cheguei! Quero ver o dedo da minha noiva!”, disse para a velhinha.
“Olhe por aqui. Daqui a pouco ela vai mostrar o dedo pelo buraco da fechadura”, respondeu.
E, realmente, um dedo muito bonito apareceu pelo buraco da fechadura. O rei beijou o dedo e colocou nele um anel. Ficou tão feliz com tudo aquilo que disse:
“Vovó, quero me casar o mais rápido possível. Vou fazer o casamento amanhã mesmo. O que a senhora acha?”
“E o que te impede disso, meu jovem?”, respondeu a velhinha.
“Ótimo, amanhã eu caso!”, comemorou o rei, que logo mandou preparar o banquete e organizar a cerimônia.
No dia seguinte, duas das vovós trouxeram a noiva coberta com três véus.
“E lembre-se”, disseram elas, “você só pode ver a noiva depois do casamento, quando o sol se puser.”
O casamento aconteceu, e o rei tomou a moça sob os véus como sua esposa. Ele mal podia esperar a noite para vê-la.
Só que as velhinhas acompanharam a noiva até o quarto, trocaram a roupa dela por uma camisola, a cobriram com os edredons e apagaram todas as velas. Depois foram embora.
Mas o rei não era bobo. Ele tinha levado uma vela escondida no bolso. Acendeu-a e, de repente, ficou paralisado: na cama, bem na frente dele, estava deitada uma velhinha toda enrugada!
Quando se recuperou do susto, ficou furioso. As velhas o tinham enganado! Pegou a “noiva”, tirou-a da cama e a jogou pela janela.
Por sorte, embaixo da janela havia um caramanchão, e a velhinha ficou presa nele pela camisola, pendurada em uma viga de madeira.
Naquele momento, três boas fadas passeavam pelo jardim do castelo. Quando passaram pelo caramanchão e viram a velhinha pendurada, tiveram uma crise de riso tão grande que mal conseguiam ficar de pé.
“Meninas”, disse uma das fadas, quando conseguiu respirar de tanto rir, “já que rimos tanto às custas dela, acho que deveríamos recompensá-la.”
“É verdade, vamos recompensá-la”, concordou a segunda. “Abracadabra, que você se torne a jovem mais linda que os nossos olhos já viram.”
“Abracadabra, que você tenha um noivo bondoso e bonito, que goste muito de você”, disse a terceira.
“Abracadabra, que você seja, por toda a vida, uma grande mulher”, completou a primeira.
E as três fadas foram embora.
Quando o sol nasceu, o rei acordou e se lembrou do que havia feito na noite anterior. Ao abrir a janela, o que viu o deixou sem palavras: no caramanchão estava sentada uma jovem lindíssima.
“O que foi que eu fiz?!”, lamentou o rei, quase arrancando os cabelos.
Pensou depressa em como trazê-la de volta. Pegou um lençol, jogou até a moça, pediu que ela se segurasse e a puxou de volta.
Com o coração apertado, implorou que ela o perdoasse. E a jovem, generosa, o perdoou de coração. Desde então, viveram felizes no castelo.
As outras duas vovós voltaram para a casinha, esperando — com uma pontinha de inveja — que talvez outro jovem rei passasse por ali. Quem sabe tivessem sorte? Só se sabe que o rei e sua esposa viveram felizes para sempre.
Que história de péssimo gosto.
Adorei!