Era uma vez, na era Mesozóica, quando o planeta era habitado principalmente por dinossauros. Mas não eram só eles que viviam naquele tempo. Se alguém parasse para escutar, ouviria também o barulho das ondas do mar, o zumbido dos insetos e o som dos dinossauros. Alguns dinossauros viviam em bandos e outros, sozinhos.
Hoje vamos contar a história de um deles, que era muito solitário: um tiranossauro, também chamado de T-rex.

Esse tiranossauro já andava sozinho havia muitos e muitos anos. E, como ele andou sozinho por muito tempo, acabou até esquecendo como os pais o chamavam. Quando era pequeno, ele se perdeu e nunca mais encontrou seus pais.
Não fazia questão de ter amigos. Por algum motivo, todo mundo acabava irritando ele. Então decidiu seguir pela vida sozinho. E, sozinho, ele se sentia bem. Caminhava no passo que era bom para ele. Quando tinha vontade, parava para descansar e olhar a paisagem. Outras vezes, tratava de apressar o passo. Quando queria, ficava bem quietinho, pensando. Quando não, ia só cantarolando.
Naquela manhã bem ensolarada, ele se levantou e, mesmo sendo carnívoro, comeu alguns brotinhos no café da manhã e seguiu viagem. Depois de caminhar a manhã inteira, de repente ele viu, no chão, um ovo meio enterrado na terra. E não era um ovo como os que ele conhecia dos outros dinossauros. Era diferente. Era menor, tinha outra cor e, de uma hora para outra, começou a tremer.
O tiranossauro levou um susto. “O que será que pode sair de um ovinho tão pequenininho?”, pensou ele, baixinho, para si mesmo.
Mesmo sendo meio indiferente, aquilo fez ele parar ali mesmo para ver o que aconteceria depois. Não é todo dia que um dinossauro vê um ovo se abrindo.
“Um ovinho tão pequeno…”, resmungou o T-rex para si mesmo. “Ele não consegue sobreviver sozinho por aqui”.
De repente, de dentro do ovo saiu uma criatura que o T-rex nunca tinha visto — e ela já começou a piar sem parar. Parecia uma tartaruga, mas não era tartaruga. A cabeça parecia de cobra, mas não era cobra. Tinha quatro patas e uma espécie de focinho.
Ela olhou ao redor, viu o T-rex e correu direto até ele. O T-rex levou um susto. Por anos ele andou sozinho. Quase nunca encontrava ninguém. E quando encontrava, fazia questão de passar bem longe. E agora, de repente, uma coisinha pequena e esganiçada vinha correndo bem na direção dele.
“Olá, ogro!”, gritou a coisinha. “Onde é que eu estou? Posso ir com você?”
“De jeito nenhum. Eu estou indo embora, tchau!”, tentou se livrar da criaturinha.
A criaturinha, de repente, começou a chorar muito. Tudo indicava que ela também tinha se perdido dos pais, e isso ainda quando estava dentro do ovo. O choro dela mexeu com o T-rex. Ele parou e resolveu levar a criaturinha com ele pelo caminho.
“Vou esperar uns dias”, pensou o T-rex. “Aí esse pirralho cresce um pouquinho, já vai dar conta de se virar sozinho e seguir o próprio caminho”. Assim era o plano do T-rex.
A criaturinha foi tagarelando o caminho inteiro, e o T-rex já estava com a cabeça cheia. Então ele começou a chamar a criaturinha de Nico. Isso não incomodava Nico nem um pouco. Ele estava feliz por ter companhia. Nem reparava como o T-rex era cheio de mudanças de humor. Nico também não conseguia entender como o T-rex não sabia o próprio nome e, por isso, passou a chamá-lo simplesmente de Gigante.
Era uma dupla bem esquisita. Todo mundo que passava por ali parava um instante para olhar. E o Gigante não gostava nem um pouco disso. “Nico, escuta. Amanhã de manhã eu me levanto e vou embora sem você. Está na hora de se virar sozinho”, disse o Gigante numa noite. Nico chorou a noite inteira.
O T-rex já não aguentava mais ouvir aquilo e saiu ainda antes de clarear. É claro que, o caminho todo, ele pensou em Nico. Chegou até a sentir uma pequena tristeza, o que o deixou completamente confuso. Quando o T-rex parou para tirar uma soneca ao meio-dia, as lágrimas começaram a escorrer. Ele não entendia nadinha o que estava acontecendo.
Afinal, aquele pestinha tinha passado dias e dias só enchendo a paciência dele. De repente, o T-rex se deu conta de que tinha encontrado um amigo de quem gostava de verdade. Ele nunca tinha sentido nada assim, e isso o deixou confuso.
No fim, ele se virou e voltou para buscar Nico. Nico ainda estava deitado, encolhidinho em forma de bolinha, e chorava. Ele gostava muito do Gigante. Para ele, o Gigante era como uma mãe. Essa comparação deixava o Gigante bem ofendido, mas não tinha jeito.
Quando Nico o viu, correu até ele e começou a tagarelar. E tagarelou o dia inteiro, até pegar no sono de tanto cansaço.
Daquele dia em diante, Nico e Gigante viraram os melhores amigos. As criaturas de toda a vizinhança já conheciam os dois, e por isso nem estranhavam tanto quando os encontravam. Duas criaturas solitárias encontraram, uma na outra, um amigo para a vida toda e seguiram juntos pela vida.