Depois do inverno frio, finalmente chegou a primavera. Hugo e Ana estavam animados para passar o fim de semana no sítio da tia. Tudo começava a florescer, e por toda parte o ar cheirava a primavera e aventura.
Sempre que tinham um tempinho, Hugo e Ana corriam para o velho galpão, onde encontravam coisas curiosas. E naquele dia foi exatamente assim. Eles acharam uma caixa empoeirada com um livro antigo.

Na capa estava escrito com uma letra bonita: “Herbário”. As páginas estavam um pouco tortas, mas dentro havia plantas cuidadosamente secas, cada uma com uma pequena legenda. Ana sentiu como se tivessem encontrado um verdadeiro tesouro.
Eles folhearam o herbário e leram sobre a margarida, a tanchagem e também sobre a sempre-viva. Em uma das páginas, Hugo leu em voz alta: “As pessoas prensam flores para lembrar delas até no inverno”. Na última página estava escrito: “Trevo de quatro folhas”. Logo abaixo, havia uma anotação com a letra da tia: “O trevo de quatro folhas traz sorte. Mas a gente precisa ir atrás dela”.
Hugo deu uma risadinha: “Mais uma sabedoria da tia. Tem dessas folhas espalhadas por todo lado”. Ana fechou o herbário com cuidado e concordou: “Verdade”. Mas ela também percebeu que o trevo de quatro folhas seco não estava no livro. Afinal, encontrar um verdadeiro trevo de quatro folhas não é nada fácil.
Depois do almoço, as crianças ajudaram a tia a tirar a louça da mesa da varanda. Mas, ao carregar os pratos, o dedo de Hugo escorregou, os pratos caíram no chão e o prato favorito da tia, com detalhes azuis, se quebrou em vários pedaços.
“Agora já era”, suspirou Ana. Hugo abaixou os ombros, triste: “A tia gostava tanto desse prato. E se ela ficar brava?”. Os dois começaram a juntar os cacos, tentando montar o prato novamente com aqueles pedacinhos. Mas não conseguiram.
Pensativos, foram até o pomar. O ar estava fresco, e o cheiro de grama recém-cortada os deixou um pouco mais calmos. Sentaram-se na grama e se encostaram numa macieira antiga. Ana mexia pensativa nas folhas dos trevos. Hugo se deitou na grama, ficou olhando para o céu e disse em voz alta: “E se a gente achasse um trevo de quatro folhas?”. Ana revirou os olhos: “Isso não vai colar o prato, né?”. Mas, assim que terminou de falar, arregalou os olhos. Seus dedos tocaram uma folha diferente das outras. Com cuidado, ela a arrancou e olhou bem. Era mesmo um trevo de quatro folhas — pequenininho, mas bem visível.
“Olha!”, exclamou a menina, segurando o trevo como se fosse algo muito precioso. Hugo se sentou: “Não acredito! Eu falei aquilo sem pensar”. Então Ana se lembrou do que estava escrito no herbário: “Às vezes, você precisa ajudar um pouco a sorte”.
“Sabe de uma coisa”, disse Ana, colocando o trevo entre as páginas do herbário, “Vamos contar para a tia. Ela vai acabar descobrindo mesmo. E talvez não seja tão ruim quanto a gente imagina”.
A tia estava na cozinha, cortando damascos. Quando as crianças entraram com os olhos baixos, ela logo percebeu que algo tinha acontecido. Ana respirou fundo: “Tia, aquele seu prato favorito, o azul, quebrou”. Hugo completou: “Foi sem querer, de verdade. Tentamos juntar tudo, mas não conseguimos consertar”.
“E também trouxemos uma coisa para você”, disse Ana entregando o herbário aberto na última página, com o trevo que encontraram. A tia ficou surpresa e depois sorriu. “O prato é só um objeto”, disse ela. “Mas eu fico muito feliz que vocês vieram me contar”. Ela acariciou a página do herbário: “E obrigada por isso. Faz anos que eu não via esse livro e nunca consegui encontrar um trevo de quatro folhas. Agora ele está completo”.
Ana sorriu e Hugo ficou aliviado. Lá fora, o sol ainda brilhava. O trevo de quatro folhas parecia ter encontrado seu lugar no herbário, como se sempre tivesse pertencido ali. Naquele dia, eles perceberam que a verdadeira sorte foi ter coragem para contar a verdade.
Trevos de quatro folhas trazem sorte. Mas a gente precisa ir atrás dela.