“Procure o espreitador por trás de tudo.” Foi o que Sardento me disse. Desde que eu, Fofinho, um dos espreitadores do prédio, comecei a brincar com as crianças, meu irmão malicioso, o Sardento, me deixou em paz.
Ele não me segue mais e não conta aos nossos pais que eu não gosto de assustar. Além disso, nos tornamos bons amigos. Sardento conhece nosso prédio de cabo a rabo: de cima para baixo, de baixo para cima, por dentro e talvez até um pouco por fora. O melhor é que ele quer compartilhar isso comigo. Como hoje.

Era de noite e eu estava esperando no corredor atrás da porta do nosso apartamento, até que Sardento chegasse. Íamos juntos fazer uma inspeção no prédio.
“Já era hora de você chegar”, eu disse, em vez de cumprimentá-lo, porque Sardento já estava vinte minutos atrasado.
Sardento bocejou.
“Desculpe, mas eu dormi muito mal. Como se o travesseiro estivesse me apertando, cutucando e espetando.”
Ele deve ter um emaranhado de pelos na cachola. Como mais ele pensaria em uma desculpa tão boba? Travesseiros são macios!
“Para onde vamos?”
“Hoje vou te mostrar como é no térreo. Para onde você está indo?”
“Bem, claro que para baixo, né?”, disse, com a primeira pata já no degrau.
“Vamos de elevador”, diz Sardento, se sentindo importante.
“Uau, nunca andei de elevador antes.”
Bastou esperar um pouco e o elevador chegou. Passamos discretamente por baixo das pernas das pessoas que estavam entrando e saindo. Conosco entrou também o imponente Senhor Carlos, que eu já tinha assustado com bastante sucesso uma outra vez. Mas hoje ele parecia diferente. Usava um gorro preto de lã enfiado na cabeça, uma camiseta preta e segurava uma lanterna na mão.
Sardento e eu nos agachamos sob o pequeno assento no elevador. A luz no teto brilhava fraquinha e o assento projetava uma sombra para nos esconder.
No quinto andar, entrou a Senhora Simone, que me lembrava muito uma rainha de livro infantil. Só não lembro se era a rainha do espelho mágico ou a rainha com os cabelos dourados. Embora os dela talvez estivessem enferrujados. Acho que ela andava muito na chuva.
Assim que a Senhora Simone entrou, começou a conversar.
“Senhor vizinho, para onde vai tão tarde?”
“Imagine só, Senhora Simone, alguém está roubando minha correspondência”, reclamou o Senhor Carlos.
“Ah, não creio! As caixas de correio têm fechadura. Alguém arrombou a sua?”
“Pior que não. E isso é que é o mais estranho. A correspondência desaparece, mas a fechadura continua intacta.”
A Senhora Simone balançava a cabeça incrédula e pisava nervosamente de um lado para o outro, como se estivesse pisando em uvas. Sardento choramingou baixinho quando ela pisou em seu pé. Eu dei um tapa no pé dela para vingar Sardento, mas com os sapatos resistentes, a Senhora Simone nem percebeu nada.
“E para onde você vai, vizinha? Para o trabalho?”
A vizinha confirmou. Estava indo para o turno da noite no hospital onde trabalhava como enfermeira.
Mas o elevador já havia parado no térreo. Ainda bem. O Senhor Carlos saiu e se escondeu na escuridão ao lado das caixas de correio.
“O que você vai fazer?”, sorriu a Senhora Simone.
“Vou esperar aqui por aquele vândalo que rouba correspondência. Vou assustá-lo e talvez até dar uma boa lição nele.”
“Então, boa caçada”, desejou-lhe e saiu em direção ao movimento noturno da cidade.
Sardento e eu deslizamos pelo corredor, na escuridão, para o outro lado.
“Ai, meu pé”, resmungou Sardento. “Ela usa sapatos que poderiam esmagar baratas.”
“Devíamos ter ido pelas escadas”, eu disse.
“De jeito nenhum! Pelo menos agora você sabe.”
“Eu sei o quê? Que sapatos de couro pontudos são bons para esmagar baratas?”
“Nada disso”, Sardento franziu a testa diante da minha falta de compreensão. “Agora você sabe por que não espreita no elevador. Naquela caixa móvel, não dá para assustar nem arranhar.”
Tive que concordar.
Sardento me mostrou o térreo e a entrada do porão. Mas hoje ele não me levará lá, pois é onde mora o espreitador mais velho da cidade, e ele não gosta de visitas inesperadas. Dizem que, em sua juventude, era um dos melhores fantasmas do ramo, mordia o nariz dos adormecidos e até mordeu o polegar de alguém certa vez.
Exploramos todos os corredores e, de manhã cedo, voltamos para casa. Desta vez pelas escadas. Sardento bocejou ao longo de quase todos os andares. Atravessamos por uma passagem na parede até o lugar onde ficam nossas caminhas.
“Pule para as cobertas!”, gritou Sardento com toda a força dos pulmões e correu para pular em seu travesseiro.
Ouviu-se o som de tecido rasgando, e cartas e folhetos promocionais de lojas voaram pelo ar. Sardento caiu na fronha vazia do travesseiro e pisoteou tristemente com as patinhas.
“Ele era tão fofinho. Agora vou ter que depenar alguma galinha para enchê-lo de novo.”
“Ou depene a caixa de correio”, sugeri, rindo dele.
Uma coisa era certa. O Senhor Carlos não pegou o ladrão esta noite. Então, boa noite e afofe bem seus travesseiros e cobertores, para que você possa dormir melhor do que o Sardento.