
Histórias para Dormir
João e os cinco esquilos
Era uma vez um reino onde todo mundo andava triste. A linda princesa de lá tinha sido raptada por uma bruxa má, que fez dela sua criada. A princesa tinha que varrer e lavar o chão da cabana da bruxa, tirar as teias de aranha, cozinhar, rachar lenha e cuidar dos bichos.
Fugir ela não conseguia, porque a bruxa tinha feito paredes invisíveis em volta da cabana. Logo no primeiro dia, a coitada da princesa tentou escapar e ganhou um galo na testa. Desde então, nunca mais tentou: só chorava e implorava para a bruxa deixá-la ir embora, mas não adiantava nada.
A triste história da princesa Eleonora era contada pelo país inteiro, como um conto de fadas sem final feliz. Numa aldeia, contaram essa história enquanto secavam o feno, e foi assim que João, o filho do pedreiro, ficou sabendo dela. João sonhou em virar herói e libertar a princesa. Mas, atenção: na aldeia também se contavam histórias sobre o João. E não eram nada parecidas com um conto de fadas. Vejam vocês mesmos que tipo de herói ele podia ser.
João tinha olhos azuis como o céu,
mas enxergava como quem usa um véu.
Orelhas ele tinha, e de bom tamanho,
mas ouvia tudo meio estranho.
Nunca pegou gripe nem teve nariz entupido,
mas cheiro nenhum era por ele sentido.
Gosto ele não sentia, comia o que lhe davam,
e pelo menos de enjoado não o chamavam.
E as mãos, ásperas e grandes como pás,
não sabiam se era veludo ou ralador, tanto faz.
João tinha os cinco sentidos, mas nenhum funcionava muito bem. Só que isso não o incomodava nem um pouco. Decidiu que ia libertar a princesa e, logo de manhã, pegou a estrada. Chegou à floresta encantada e lá se perdeu. Primeiro, porque era uma floresta encantada. Segundo, porque ele enxergava mal. E, como enxergava mal e ainda por cima não olhava por onde andava, deu de cara com uma coisa dura. Eram as pernas de galinha da cabana da Baba Yaga.
Enquanto João esfregava o nariz dolorido, a Baba Yaga pôs a cabeça para fora da porta.
“Por que você está esmurrando a minha casinha, seu pateta?”, gritou ela.
“O quê? Eu não estou espiando a vizinha de ninguém. E nem tenho marreta!”
“Ai, ai, lá vem mais um herói…”, suspirou a Baba Yaga. Ela chamou João para entrar e pôs uma compressa no nariz dele.
“E o que você está fazendo zanzando pela floresta encantada?”, perguntou a Baba Yaga bem alto, para João ouvir direito.
“Queria libertar a princesa da bruxa má. Mas me perdi.”
“Aquela bruxa má é minha irmã. Com a princesa lá, a casa dela está um brinco, e a minha, olha só! Uma bagunça só. Quando perguntei se ela me emprestava a faxineira, ela ficou toda inchada que nem um balão e disse que não, que eu limpasse tudo sozinha. Fiquei tão brava que agora vou te ensinar, com o maior gosto, como passar a perna nela.”
“Obrigado, vovó Baba Yaga. Que arma eu levo contra ela? Um garfo?”
“Que arma que nada, isso não serve para nada”, disse a Baba Yaga, abanando a mão. “Minha irmã adora dar tarefas. Se você cumprir todas, ela perde o poder e te entrega a princesa. Só que você dificilmente vai conseguir. Aquela feiticeira poderosa sabe muito bem quem está indo até ela e com certeza vai preparar tarefas que você não consegue cumprir.”
“Mas eu quero muito ser herói. Vou conseguir, sim. Olha só: sou forte, tenho olhos azuis bonitos, orelhas limpinhas, nariz de botãozinho, boca de meia-lua e mãos fortes, cheias de calo de tanto trabalhar.”
Baba Yaga ficou pensativa.
“Já sei o que você precisa. Você precisa de cinco esquilos.”
Baba Yaga pegou um saco e começou a fazer mágica em cima dele.
João ficou na dúvida se não tinha ouvido errado. Ela tinha dito mesmo esquilos?
“Mas, vovó, a senhora se confundiu! Eu preciso é de cinco sentidos, não de cinco esquilos!”
Mas a Baba Yaga já estava tirando os esquilos do saco, um atrás do outro. Tirou cinco, certinho, e colocou todos em cima da mesa, na frente do João.
“Pronto, aqui estão. E trate de correr, antes que a bruxa má descubra que você veio me pedir ajuda.”
E antes que João pudesse reclamar, a velha o empurrou porta afora junto com os esquilos, bateu a porta e virou a casinha, com pernas de galinha e tudo, para o outro lado.
João deu de ombros e seguiu pela floresta com o seu presente mágico: cinco esquilos.
“Ah, se eu enxergasse melhor o caminho… Já está escurecendo e acho que me perdi de novo”, resmungou João baixinho.
De repente, um dos esquilos pulou na frente do João e falou com voz de gente: “Eu sou o Olhino e enxergo muito bem. Quando olho através da floresta, vejo tudo o que tem do outro lado.”
“Então olha, amigão: você está vendo o caminho para a casa da bruxa má?”
O esquilo Olhino arregalou os olhos para o meio das árvores por um instante e disse: “Já sei o caminho. Vem comigo que eu te levo.”
Logo, João encontrou a casinha onde morava a bruxa má.
“Então você quer libertar a princesa, é? Primeiro vai ter que cumprir as três tarefas que eu vou te dar. E, se não cumprir, vai virar meu criado e vai ficar aqui rachando lenha até você mesmo virar um toco.”
“O quê? Vou virar um coco?”
“Não, cabeça oca você já tem”, resmungou a bruxa, irritada. Depois esfregou as mãos e continuou: “Escute a primeira tarefa. Aqui tem purê de batata em vinte pratos. Mas a minha cozinheira esqueceu de pôr sal em um deles. Sua tarefa é provar cada purê e achar o que está sem sal.”
João pegou um pouco do purê do primeiro prato com o dedo e provou. Mas não sentiu nada de especial.
“Talvez se você lavasse as mãos primeiro… Assim, tudo vai ter gosto de sal, igual a essas suas patas sujas”, debochou a bruxa, embora as mãos dela não estivessem muito mais limpas. Por fim, ela deu uma colher para João e saiu.
“Ah, se eu sentisse o gosto direito e conseguisse descobrir qual purê está sem sal”, suspirou João.
Então um segundo esquilo pulou na frente dele e falou com voz de gente.
“Eu sou o Gulosinho, o esquilo mais guloso do mundo. Eu provo esses purês e te digo qual está sem sal.”
O esquilo deu uma volta de mansinho por todos os pratos. No penúltimo purê, deixou a marquinha da pata e se escondeu debaixo da mesa.
“É esse aí!”, exclamou João.
A bruxa má veio correndo na mesma hora e ficou espantada de ver como ele tinha acertado tão fácil.
“Vai ver você só teve sorte. Escute a segunda tarefa. Numa caverna aqui pertinho mora um duende das pedras. Lá dentro ele tem um monte de tesouros, mas está um breu. No meio do ouro e das pedras, ele guarda a fita macia de cabelo da princesa. Vá até lá. Quando ouvir o duende cantando, é sinal de que ele não está vigiando os tesouros. Nessa hora, entre, ache a fita pelo tato e traga para mim.”
João chegou até a caverna e suspirou:
“Ah, se eu ouvisse melhor quando o duende começar a cantar…”
Então o terceiro esquilo pulou na frente dele e falou com voz de gente.
“Eu sou o Orelhinha e escuto até a Baba Yaga roncando do outro lado da floresta. Eu te aviso quando o duende começar a cantar, e aí você pode ir.”
“Mas isso não adianta. Como é que eu vou saber o que é fita e o que é pedra no escuro?”
Então o quarto esquilo pulou e também falou com voz de gente.
“Eu sou o Tato. Tenho patinhas muito sensíveis e sei diferenciar uma pedra de uma fitinha até de olhos fechados. Eu vou no seu lugar e trago a fita.”
Pouco depois, João estava diante da bruxa má, mostrando a fitinha da princesa.
“Ora essa, teve sorte de novo, seu malandro. Mas espere só! Ainda tenho uma terceira tarefa para você. E essa você não vai conseguir de jeito nenhum. Olhe!”, disse a bruxa, apontando para o campo na frente da cabana.
No gramado havia dez princesas, todas iguaizinhas, sem tirar nem pôr.
“Descubra qual é a princesa de verdade e vocês podem ir embora”, grasnou a bruxa, caindo na gargalhada.
João andou em volta, mas as princesas eram todas exatamente iguais. Então um quinto esquilo apareceu junto do pé dele e falou com voz de gente.
“Eu sou o Focinho. Pelo cheiro, eu acho a sua princesa. Me mostra essa fitinha.”
João mostrou a fitinha, o Focinho deu uma cheiradinha e saiu no meio das princesas, cantarolando alguma coisa sobre o perfume das rosas do jardim real. João foi atrás e viu o esquilo cheirar cada princesa com todo o cuidado, até que finalmente parou numa delas e piscou para João.
“É ela! Ela tem cheiro das rosas que florescem no jardim real!”, exclamou João, apontando para a princesa.
Naquele momento, as outras princesas sumiram, e a bruxa má ficou uma fera.
“Ora essa! Não pode ser tanta sorte assim! Fale a verdade, seu trapaceiro: você sente cheiro, enxerga e escuta direitinho, não é? Todas aquelas histórias sobre você eram mentira!”
“Mentira ou não, a princesa vem comigo, e você que limpe tudo sozinha, sua bruxa ranzinza.”
E assim João salvou a princesa e virou herói. A princesa gostou muito dele: afinal, ele sempre comia tudo o que ela cozinhava e sempre achava gostoso (ou, pelo menos, nunca reclamava). João também aguentava ouvir por horas as histórias dela sobre vestidos bonitos e nem ligava quando ela exagerava no perfume. Mas os esquilos ligavam, e não quiseram morar com a princesa. Voltaram para a casa da Baba Yaga. João agradeceu a eles e, em troca, deu ao reino que tinha conquistado o nome de Esquilândia.
E a bruxa má? Teve que começar a limpar tudo sozinha. Como era preguiçosa e tinha esquecido o feitiço da limpeza, a bagunça foi crescendo tanto que ela se perdeu de vez lá dentro. Ninguém nunca mais a viu. E foi melhor assim, porque ela não pôde mais fazer mal a ninguém.
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