
Histórias para Dormir
Como o pequeno diplódoco Rafael conseguiu o que queria e os dinossauros ganharam pescoço comprido
Era uma vez, há muito, muito tempo, num pequeno vale atrás dos morros, uma porção de diplódocos. Acredite se quiser, mas foi assim mesmo: muito antes de aparecerem as pessoas na Terra.
E quem eram esses diplódocos? Dinossauros enormes, fortões, mas nada comuns. Cada diplódoco pesava mais que o carro em que você anda com a mamãe e o papai, e quando ele caminhava, o chão tremia e afundava debaixo dele. Pois é!
Famílias inteiras de diplódocos andavam mesmo, antigamente, pelos vales, colinas e planícies da América. Só que isso foi há tanto tempo que a América, do jeito que a gente conhece hoje, ainda nem existia.
Talvez você não saiba, mas os diplódocos eram dinossauros muito bonzinhos. Passavam o dia inteiro andando com a família, procurando flores bonitas, agulhas de pinheiro e folhinhas de samambaia, que era o que eles comiam. O vale tranquilo protegia eles dos dinossauros ferozes, então eles não tinham grandes preocupações. Só uma, talvez: as folhas que cresciam lá embaixo ficavam a cada ano mais e mais secas.
E foi ali mesmo que cresceu um diplódoco pequenininho chamado Rafael. Na verdade o nome dele era um pouquinho diferente, mas a língua dos dinossauros não dá para traduzir para a nossa.
O Rafael adorava o seu valezinho sossegado e os outros diplódocos também. Só que eles nem sempre gostavam dele. E sabe por quê?
É que os dinossauros eram muito apegados aos velhos costumes. Viviam conversando sobre as mesmas coisas, dormiam nos mesmos lugares e comiam a mesma comida. E isso não bastava para o Rafael. Ele vivia tendo sonhos e ideias malucas, e a família só balançava a cabeça.
Quando ouviram uma dessas ideias, nem acreditaram, e infelizmente até deram uns sorrisinhos maldosos. O Rafael decidiu que estava cansado das folhas que cresciam na altura do focinho dele. Na maior parte do ano ele nem gostava delas: eram secas, enroladas e muitas vezes alguém já tinha dado uma mordida. Daqui a pouquinho você vai saber o que ele inventou. Mas antes eu preciso te explicar uma coisa.
Naquela época, os diplódocos eram bem grandões, mas tinham pescoços muito, muito curtos e grossos. Não conseguiam virar a cabeça direito para o lado. E parecia que isso não os incomodava nem um pouco.
Aqueles dinossauros sossegados simplesmente se acostumaram: quando queriam arrancar uma folhinha nova ou falar alguma coisa com o vizinho, tinham que virar o corpo enorme inteirinho. Levavam horas, e o chão vivia tremendo. Mas fazer o quê? No mundo deles era assim que as coisas funcionavam.
Só que o diplódoco Rafael não se conformava com isso de jeito nenhum. Talvez porque ele mesmo tivesse nascido com o pescoço um pouquinho mais fino, e conseguia virar a cabeça para onde quisesse. A família, os parentes e os amigos gostavam dele, claro. Mesmo cochichando entre si que, com um pescoço daqueles, ele nunca ia arranjar uma noiva diplódoca bonita.
O pequeno Rafael nem ligava. Passava horas com a cabeça inclinada para trás, olhando lá para cima, bem no alto, para as copas dos pinheiros e ginkgos gigantes. Lá ele via um montão de folhas, suculentas e iluminadas pelo sol, e ainda frutos e sementes só esperando alguém para saboreá-los. E aí ele teve a ideia: por que não tentar?
Como você deve saber, os dinossauros eram grandes demais para subir em árvore. Mas isso não quer dizer que o Rafael não tentou. Ai, ai, quanto tombo ele levou! E os outros diplódocos rolavam de rir. Então como chegar àquelas delícias lá de cima?
E esta foi a ideia dele, da qual os outros dinossauros caçoavam. O pequeno Rafael estava disposto a tudo. Começou a inclinar a cabeça para trás e a esticar o pescoço. Ele já olhava muito para cima antes, mas desde que decidiu não desistir, se esticava de manhã, ao meio-dia e de noite.
No começo os outros zombavam dele, depois nem prestavam mais atenção. Mas ele não desistiu. A mãe dele, preocupada, até parou de tentar convencê-lo a voltar às coisas normais. Só levava para ele um montinho de folhas e brotos e ia embora, sem nem olhar para trás, porque não conseguia virar o pescoço.
Assim foram passando os dias, os meses e as estações. Até que um dia, na primavera, logo cedinho, os diplódocos do vale viram a maior maravilha de todas. Pelo meio do vale vinha andando, todo pimpão, o dinossauro Rafael, já um pouco crescido, com um pescoço longo e fino. O pescoço dele tinha crescido de tanto ele se esticar para cima.
E sabe o que ele estava fazendo? Mastigando, todo contente, as folhas do ginkgo mais alto! Quem tinha caçoado dele ficou com o sorriso congelado no rosto. E tem mais: naquela mesma noite, os dinossauros convocaram uma reunião especial para conversar sobre como ele tinha conseguido aquilo.
Quando aquele dia extraordinário foi chegando ao fim, ninguém mais ria do Rafael. Na reunião, todos olhavam para ele com admiração, mesmo ele sendo completamente diferente dos outros diplódocos. No vale fazia um silêncio total. Todos esperavam para ouvir o que o jovem e corajoso dinossauro ia dizer.
— Eu perdoo vocês, família, amigos, conhecidos e desconhecidos, por terem sido tão maus comigo — disse o Rafael, girando o pescoço compridão para conseguir ver todo mundo.
— Mas da próxima vez que aparecer entre vocês um diplódoco um pouco diferente, colorido demais, gordo demais, magro demais ou com a patinha torta, lembrem de mim. Porque todo mundo que é diferente esconde dentro de si algum talento que pode trazer alegria para todos nós.
Os diplódocos, como você deve imaginar, não sabiam bater palmas. Mas se soubessem, teria sido o aplauso mais barulhento de todos os tempos dos dinossauros. Em vez disso, todos os bichos começaram a bater os pés de alegria. E bateram tanto que o vale atrás dos morros nunca tinha visto uma barulheira daquelas. Teve festa e dança até de manhã!
E o que aconteceu depois com o Rafael? Ele cresceu e cresceu, bonito e imponente, e com aquele pescoço acabou ficando mais alto que os prédios da cidade. Quando virou adulto, não teve o menor problema para encontrar uma noiva. As mocinhas diplódocas viviam rodeando ele, até que ele se apaixonou por uma delas, a quietinha Aninha, e eles fizeram um casamentão. Convidaram todos os diplódocos do vale. Porque o Rafael fez o que disse: perdoou todas as caçoadas e esqueceu as velhas mágoas.
E tem mais: ele nunca guardou aquele talento extraordinário só para si. Todo dia levava para o vale pinhas do alto das árvores, feixes de agulhas de pinheiro pingando resina, que os outros não alcançavam, e ainda a maior delícia de todas: as folhinhas cheirosas de ginkgo. O Rafael dividia tudo com todos, direitinho!
E depois, depois… a Aninha e o Rafael tiveram filhotes. Acredite se quiser, foram sete, e cada um herdou do papai o pescoço longo, flexível e jeitoso. Quando cresceram, passaram esse pescoço para os seus próprios filhotes. E assim foram nascendo novas e novas gerações de diplódocos de pescoço comprido, até que no fim todos ficaram assim.
E desde então, os diplódocos puderam saborear tudo o que tivessem vontade. E nenhum deles nunca mais teve coragem de rir de quem parece diferente. Nem dos sonhos dele.
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