
Histórias para Dormir
Os irmãos que entendiam a língua dos bichos
Numa cidadezinha moravam dois irmãos gêmeos. O Cristiano e o Zeca já iam para a escola, mas, cá entre nós, davam bastante trabalho para os pais. Era difícil explicar para eles que ir à escola é obrigatório e que a lição de casa se faz quando o professor passa, e não só quando dá vontade. E o pior de tudo: um vivia convencendo o outro a matar aula. Uma vez era o Cristiano que convencia o Zeca, outra vez o Zeca que convencia o Cristiano. A mamãe e o papai ficavam cada vez mais preocupados.
Mas vamos logo dizer que os meninos não fugiam da aula para fazer nada de errado. Nunca brigavam com ninguém e nem pensavam em travessuras maldosas. Não quebravam nada e não incomodavam ninguém. Simplesmente corriam o mais rápido que podiam até a beira da cidadezinha, para uns terrenos velhos cheios de mato, onde antigamente havia sítios e onde ninguém morava fazia anos.
Iam para lá porque tinham um segredo que não queriam dividir com os adultos. E, além do mais, quem ia acreditar neles?
É que o Cristiano e o Zeca sabiam conversar com os bichos.
Não nasceram sabendo, não. Só passaram muito, muito tempo escutando. Primeiro, só de brincadeira, tentaram imitar o coaxar dos sapos. E que susto levaram quando, depois de muitas semanas, um coral inteiro de sapos respondeu lá da lagoa cheia de taboas!
No começo os meninos acharam que estavam imaginando coisas. E cada um tinha medo de contar para o outro, porque quem já ouviu falar de uma coisa dessas? Mas gêmeos muitas vezes adivinham o que o outro está pensando, e no fim os dois acabaram conversando sobre isso. E se abriu para eles um mundo novo, que os outros não enxergam.
Acontece que cada espécie de bicho tem a sua própria língua. E isso era só o começo, porque essas línguas ainda tinham os seus sotaques, e os bichos de cada cantinho tinham as suas próprias expressões. Não é de admirar que os meninos fossem os melhores da escola em inglês, mesmo sem estudar nada. Eles tinham mesmo um talento danado para línguas.
E quanta coisa dava para descobrir! Com as pegas e os corvos, com a cobra-d’água e com o besouro, com a raposa, com o gato e até com o furão. O Cristiano até hoje lembra do dia em que uma lebre cinza-avermelhada contou para ele mil coisas sobre os parentes, os conhecidos e os vizinhos dela. Só que as lebres são famosas por serem fofoqueiras e não ligam muito para a verdade. Não é de admirar que, quando os meninos repetiram algumas dessas novidades em casa, sem contar de onde tinham ouvido, o tempo fechou.
Graças às línguas dos bichos, o Cristiano e o Zeca também podiam ajudar os animais. E isso os deixava muito felizes. Quem ia querer ficar sentado numa carteira chata da escola, se podia levar para casa um cachorrinho perdido ou soltar um passarinho que estava com um adesivo grudado na perninha?
Mas uma coisa os gêmeos não sabiam. Os bichos também conversavam entre si sobre eles. A lebre, claro, era quem mais falava, espalhando verdades e meias-verdades, mas entre os animais da redondeza havia uns bem mais sábios, que estavam muito preocupados com os meninos. Os sapos podem até não precisar ir à escola, mas meninos pequenos precisam, sim! E os bichos só queriam o bem deles.
Então mandaram a coruja. A coruja, por natureza, já impõe respeito, e para essa ocasião ainda fez uma cara bem séria, quase de professora. Chegou tarde da noite, pousou de mansinho no parapeito da janela do quarto dos gêmeos e os acordou com um pigarro bem forte.
— A coruja! A coruja! Oi, coruja! — gritaram o Cristiano e o Zeca juntos, contentes porque, dessa vez, a natureza tinha vindo visitá-los.
— Oi, seus dois levados! — respondeu a coruja. — Fico feliz em ver vocês, mas não vim só para bater papo. Vou falar sem rodeios: conversamos com todos os bichos da redondeza e decidimos o seguinte. Se vocês não pararem de matar aula e não começarem a estudar direito, nunca mais vamos falar nem uma palavra com vocês.
— O quê? — gritaram os meninos, decepcionados, esquecendo por um momento que horas eram.
— Pois é. Com a gente vocês podem conversar quando quiserem. Mas um dia a escola acaba, e se vocês não se esforçarem, vão ter problemas que nós não vamos poder resolver. E pensem também na mamãe e no papai. Sabem como eu me sentiria se as minhas corujinhas aprontassem assim?
Menino pequeno às vezes faz as coisas sem pensar no que vai dar. Mas dessa vez o Cristiano e o Zeca pararam para pensar. E ficaram com pena de verdade. Era muito legal descobrir os segredos dos bichos, só que os pais nem sabiam quanta coisa eles tinham aprendido. Achavam simplesmente que os filhos não ligavam para nada. A coruja reparou bem como a boca dos meninos foi ficando caidinha.
— Muito bem! — disse ela por fim. — Estou vendo que vocês já entenderam. Nunca mais façam isso, e eu, como prêmio, vou contar para vocês uma palavra secreta que vale em todas as línguas. Com ela, a mamãe e o papai não vão ficar bravos com vocês e vão parar de se preocupar. É só dizer para eles amanhã. Mas tem uma condição: vocês têm que dizer de coração!
A coruja cochichou a palavra secreta para os meninos. Eles cumpriram a promessa, e quando saíram para a escola na manhã seguinte, não havia mais nem sinal de preocupação no rosto dos pais.
Nem todo mundo tem tempo e paciência para aprender a língua de todos os bichos, mesmo que toda criança tenha talento para isso. Mas esta palavrinha aqui é bem simples e vale a pena dizê-la em todo lugar onde ela está faltando há muito tempo.
Aqui está ela: DESCULPEM.
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