De manhã, o vilarejo está estranhamente agitado. Ainda nem clareou direito, e já se ouvem risadas, portas batendo e sininhos tilintando. É dia de carnaval. Um dia em que, por algumas horas, quase tudo é permitido e as ruas se enchem de fantasias, música e alegria.
André está parado junto à janela, olhando lá embaixo para a praça. Ele vê pessoas fantasiadas, reconhece alguns vizinhos, mas outros ele nem imagina quem sejam.

Alguém usa uma enorme fantasia de urso, que simboliza a força e, segundo a tradição, traz saúde e uma boa colheita. Dois vizinhos caminham cobertos por um lençol branco e carregam uma fantasia de égua, que representa o fim do inverno.
Como é a primeira vez que André vê um desfile de carnaval daquele jeito, pergunta à mamãe: “Mamãe, por que hoje todo mundo está tão esquisito?”.
A mamãe sorri e responde: “Porque é carnaval. Antes de começar um período de jejum, as pessoas se reúnem para festejar, comer coisas gostosas, dar risada e se divertir”.
André não entende muito bem, mas gosta de saber que aquele não é um dia comum. Logo o desfile passa pela rua. Na frente vai a banda. Atrás dela vêm as pessoas fantasiadas, pulando, cantando e fazendo brincadeiras. De repente, uma das fantasias para bem debaixo da janela de André.
“Ei, você! Venha participar!”, chama uma voz grossa.
André hesita por um instante, mas logo desce correndo as escadas.
Enquanto acompanha o desfile, ele descobre que o carnaval faz parte de uma tradição antiga. As pessoas se despedem do inverno e dão as boas-vindas a um novo tempo. André caminha com o grupo, tentando descobrir quem está por trás de cada fantasia. Algumas o fazem rir. Outras impressionam um pouco.
Mas quem mais chama sua atenção é o grande urso. Ele é todo marrom, bem peludo, e carrega uma corrente no pescoço que faz barulho a cada passo. De vez em quando, bate o pé no chão e solta um grande resmungo, fazendo as crianças pularem para trás.
“Ele é importante. Sem o urso, o desfile não seria o mesmo”, sussurra uma senhora ao lado de André.
Quando o cortejo chega à praça, a música para por um instante. De repente, alguém percebe uma coisa. O urso desapareceu. A corrente já não faz barulho, e a grande cabeça peluda não está em lugar nenhum.
“Onde ele está?”, perguntam todos.
André se lembra de ter visto o urso se afastando do grupo, procurando um lugar mais silencioso. Ele corre até um velho celeiro. A porta está entreaberta. Lá dentro, encontra apenas a cabeça da fantasia de urso encostada na parede, mas o resto do urso não está em lugar nenhum.
Pouco depois, a porta range. Entra um menino ainda vestido com a roupa de urso, mas sem a cabeça da fantasia.
André cria coragem e pergunta: “Onde você estava? Todo mundo está procurando você!”
O meio-urso sorri de leve e responde calmamente: “Pois é, até os ursos precisam ir ao banheiro às vezes. Vamos voltar antes que sintam ainda mais a minha falta”.
Os dois voltam correndo. Assim que o urso reaparece, a música recomeça, as pessoas batem palmas e as crianças voltam a rir de suas brincadeiras. André acompanha o desfile por mais um tempo e aproveita toda a alegria daquele carnaval. No fim da festa, ele saboreia um delicioso sonho polvilhado com açúcar.
À noite, o vilarejo volta a ficar silencioso. Em alguma mesa ainda resta um último sonho, e no chão, alguns pedacinhos de papel colorido lembram que a festa aconteceu. O carnaval acabou. Mas André adormece levando consigo um monte de lembranças felizes daquele dia tão especial.