A minha última travessura não deu certo. Meu irmão Sardento contou isso pros nossos pais como se fosse uma piada super engraçada. Eles não acharam tão engraçado assim. Eles até ficaram meio bravos e, na noite seguinte, me mandaram assustar um andar mais pra baixo.
Tenho certeza que já contei isso pra vocês: eu sou um espreitador de prédio, então meu território é o prédio e minhas traquinagens de espreitador… bem, não estão dando muito certo.

Mas hoje eu preciso mudar isso, senão não vou poder mais entrar no quarto das crianças. E eu quero muito ir pra lá. Eu adoro crianças! Mas olha só, eu deveria assustá-las enquanto dormem. Eu queria tanto brincar com elas. Será que pode, um fantasminha brincar com crianças?
Hoje à noite vou assustar um andar mais embaixo. Lá mora o Senhor Carlos e, pelo que o Sardento falou, deve ser fácil atrapalhar um pouquinho o sono dele.
Assim que escurece, eu me esgueiro até o quarto onde o Senhor Carlos está dormindo. O Senhor Carlos se espalha na cama toda e o ressonar do ronco dele dá para ouvir já da porta. Está roncando como uma máquina a vapor. De repente, fico com o coração bem pequenininho. Eu, um pinguinho desses, ainda sou um espreitadorzinho, e vou ter que assustar um gigante desses? Vou espantar o medo, que não ajuda em nada, e vou me esgueirando até a cama. Nisso, estico as minhas garrinhas e enfio elas no tapete. Então, enquanto caminho, faz scratch, scratch, scratch.
O Senhor Carlos continua roncando tranquilo. O barulho das garrinhas não o incomoda. Percebo que os dedinhos do pé dele aparecem debaixo do edredom! Para um espreitadorzinho, isso é como um grande banquete para quem está morrendo de fome! Então vou lá e dou uma arranhadinha de leve com as garrinhas no dedão. Mas não vou morder o dedo dele, que cheira a queijo fedido e eu não gosto nada disso.
A perna deu uma sacudida de leve. Vou tentar enfiar ainda mais as garrinhas no pé. Scratch, scratch!
Num instante eu me encolho, porque a perna do Senhor Carlos mexeu e desapareceu debaixo do edredom. E o Senhor Carlos se virou de lado. Ah, tudo bem, vou tentar de outro jeito. Dou a volta na cama e rapidinho vejo por onde ir. Da mesinha de cabeceira, vou ter o Senhor Carlos ao alcance da patinha.
Basta um pulo ágil, me puxo pra cima e já estou lá. Estico a patinha pra fazer cosquinha no nariz do Senhor Carlos, quando de repente…
Chrrrrrrrr!
Fuja! É o que passa pela minha cabeça. Minhas pernas se embolam na pressa e eu desabo do criado-mudo para o tapete fofinho. Me enrolo debaixo da cama e fico esperando lá. Que baita susto que eu levei. Mas não veio outra martelada da garganta do Senhor Carlos. Então tomara que isso não se repita.
Dou uma espiadinha com cuidado do meu esconderijo. O Senhor Carlos está com a mão pendurada pra fora da cama! Já corro pra lá e começo a mordiscar de leve com meus dentinhos afiados. Antes que eu consiga entender o que está acontecendo, a mão se levanta e… não acredito… me faz um carinho na cabeça, como se eu fosse um cachorrinho!
“Aguenta aí, Mourinho, ainda é cedo pra café da manhã”, murmura o Senhor Carlos no travesseiro e ainda faz um carinho na minha cabeça.
Ora essa! Como ele ousa? Quem você pensa que é, Senhor Carlos!?
Meu coraçãozinho bate forte de medo debaixo do meu pelo, e agora também de raiva. A mão sumiu debaixo do edredom, mas eu já estou rebolando e me preparando pra pular na cama. Nem sei de onde tiro tanta coragem. Mas ela some na hora quando ouço um sibilo atrás de mim. O salto não acontece, em vez disso eu me viro e vejo: atrás de mim está o gato.
Puxa vida! É o Mourinho! Ele sibila e se arrepia todo, então eu também me encolho e tento arrepiar meus pelos pretos o máximo que consigo. Agora o Mourinho já está rosnando bem fundo, ameaçador.
“Mourinho, caramba, o que passou pelo seu focinho?”, diz o Senhor Carlos, da cama.
Quero fugir, mas o Mourinho está parado na porta do corredor. O Senhor Carlos senta, acende o abajur e, por um instante, vê que o gato está sibilando para alguma coisa. Pra mim – uma bolinha preta encolhida em cima do tapete.
“Pelo amor de Deus! Um rato! Ou uma super aranha! Socorro!”, ele grita e puxa o edredom pra cima dele.
Mourinho se assusta com a voz dele e, por isso, eu consigo escapar rapidinho para o corredor e, viva, já estou passando pelo buraco para os nossos corredores. Ainda ouço ele gritar: “Mourinho, pega aquele bicho!”
Ágil como nunca, entro correndo na nossa toca. Meu coração dispara, meus pelos ainda tremem, assim como meu corpinho por baixo deles. Mas, finalmente em casa, posso dizer que assustei alguém de verdade. Ainda bem que o Senhor Carlos morre de medo de ratos e aranhas gigantes. Quem sabe o que teria acontecido comigo se fosse diferente. Mas, no final, ficou tudo bem.
Lá fora está amanhecendo. Em casa, ganhei elogios dos meus pais. É hora de dormir. Mas só até de tarde, pra eu poder ir espreitar escondido as crianças brincando. Então, bom dia, eu vou dormir.