
Histórias para Dormir
Sobre o tigre de gelo
Era uma vez um reino onde moravam um rei e uma rainha. Um dia, nasceu para eles uma menininha. E de noite, como sempre acontece nessas histórias, apareceram duas fadas madrinhas ao lado do berço.
“Cadê a Nádia? Ela já devia estar aqui”, suspirou a primeira fada madrinha.
“Eu é que sei?”, resmungou a segunda. “Na certa está por aí fazendo boas ações. Argh!”
“Então vamos começar sem ela”, decidiu a primeira fada madrinha. E começou: “Você vai ser linda, inteligente e bondosa, princesinha.”
“E tanto, mas tanto, que por sua causa o reino inteiro vai congelar”, completou a segunda fada madrinha.
“Ah, não! E a Nádia não está aqui para consertar isso com a profecia dela”, lamentou a primeira fada madrinha.
As fadas madrinhas sumiram. Mas antes de o sol acordar, a fada madrinha Nádia ainda passou voando pela janela.
“O que congela também derrete. E eu te dou coragem para você conseguir salvar o reino.”
E assim foram passando os dias, as semanas, os meses e os anos. A bebê virou uma menininha que todo ano pedia ao pai, o rei, que trouxesse alguma coisa fora do comum de aniversário. O rei viajava para terras distantes, onde era sempre inverno, só gelo e neve. Coisa que a princesa não conhecia, porque no reino dela fazia sempre um calorzinho gostoso. Por isso, entre os presentes mais lindos que ela ganhou estavam pingentes de gelo, bolas de neve e até um bonequinho de neve. É claro que os presentes derretiam rapidinho, mas isso só deixava a alegria dela ainda maior. Eram presentes que nunca se repetiam.
Quando foi chegando o dia do aniversário de dezoito anos da princesa, a Amanda – era assim que ela se chamava – pediu ao pai que trouxesse das viagens às terras frias e distantes algum presente de deixar qualquer um de boca aberta.
Dessa vez, o rei deu sorte. Enquanto quebravam o gelo para abrir caminho, ele encontrou um tigre congelado dentro de um bloco de gelo. Na mesma hora mandou os seus homens carregarem o tigre, cobrirem tudo com neve para não derreter no caminho, e voltarem para casa. Vai ser uma surpresa e tanto, pensou o rei, a Amanda vai ficar felicíssima. E imagine então quando ele conquistasse aquela terra congelada, juntasse ao seu reino e pudesse levar a filha para passear por lá!
E não deu outra: o presente deixou a Amanda sem fôlego. O tigre estava dentro do gelo de boca aberta, como se estivesse bravo com alguém.
“É mesmo um presente único. Mas eu fico com dó desse tigre”, disse a Amanda. “Vou deixar o gelo derreter e soltar o tigre na natureza.”
O rei tentou explicar que o tigre não podia ter sobrevivido dentro do gelo e que era melhor deixar ele trancado lá embaixo, no porão, onde é frio. Mas a Amanda nem quis saber. Alguma coisa dizia para ela que o tigre ainda estava vivo.
E ela tinha razão. Assim que o gelo derreteu, o tigre deu um pulo e se sacudiu igual a um cachorro que acabou de tomar banho. E então, para espanto de todo mundo, o tigre falou feito gente.
“Eu sou um feiticeiro, o rei da terra gelada que vocês queriam tomar para vocês. Mas fiquei preso no gelo em forma de tigre. Agora estou livre e vou voltar a ser rei de lá. E, para me vingar, vou mandar para o seu reino neve e gelo para sempre!”
O tigre pulou pela janela e sumiu. Mas o céu se encheu de nuvens escuras e logo começou a nevar. Um vento gelado assobiava nas janelas, e a geada foi deixando brancos os galhos das árvores, que estavam bem no meio da florada.
“O que você foi fazer, Amanda? Devia ter deixado o tigre congelado no gelo!”, choramingou o rei, enquanto calçava meias nos pés e mais um par nas mãos.
“O nosso país não está acostumado com o frio”, se queixou a rainha, enrolada num cobertor.
“Eu vou dar um jeito nisso”, disse a Amanda. Se agasalhou bem e saiu. O cozinheiro embrulhou para a viagem um montão de bifes à milanesa que estava fazendo para o almoço e desejou boa sorte para ela.
Ela nem tinha saído dos jardins ainda quando viu duas cegonhas paradas no laguinho. As pernas delas tinham ficado presas no gelo que começava a se formar na água. A Amanda correu, quebrou o gelo e levou as cegonhas para casa, para perto da lareira quentinha. Quando as pernas descongelaram, as cegonhas abriram as asas e agradeceram.
“Quando você precisar de ajuda, a gente vai ficar feliz de retribuir”, gritaram as cegonhas, e foram embora voando.
A Amanda seguiu em frente, afundando na neve e enfrentando aquele vento terrível. Quando passava pela floresta, viu uma alcateia de lobos encolhidos num monte de neve, tremendo de frio. Choramingavam de tanto frio, coitadinhos. Então a Amanda deu para eles todos os bifes que tinha ganhado para a viagem. Os lobos comeram e assim também se esquentaram.
“Quando você precisar da gente, vamos ficar felizes de retribuir”, disseram os lobos para a Amanda, e foram com ela até o fim da floresta.
E foi assim, toda congelada, que a Amanda chegou à terra gelada. Na entrada da cidade, encontrou uma menininha tremendo de frio. Ela nem casaco tinha. Então a Amanda tirou o seu casaquinho de pele e enrolou a menina nele.
“Obrigada, moça. É que eu me perdi”, disse a menina. “Eu vim com o meu pai vender no mercado da cidade, mas enquanto eu pegava floquinhos de neve com a língua, ele sumiu de vista. E agora eu não sei para onde ir.”
“Vem, a gente vai achar ele na cidade, tenho certeza.”
Não demorou muito e a Amanda e a menina acharam o comerciante. Pai e filha se abraçaram, felizes da vida por terem se encontrado.
“E você, que me trouxe de volta o que eu tenho de mais precioso, fique com isto.”
“Que sapatos esquisitos”, disse a Amanda, olhando para os sapatos com uma lâmina na sola.
“São patins, menina. Com eles dá para deslizar no gelo.”
“Obrigada, acho que vou precisar deles nesta terra gelada. O senhor sabe onde mora o rei daqui?”
“Ah, sei sim. Agora ele se chama Tigre de Gelo e mora no castelo dele, depois de uma planície de neve sem fim e de um abismo fundo que não acaba mais. Ninguém consegue chegar lá. Ele só aparece quando ele quer. E mesmo que alguém aguentasse andar por aquela neve sem fim e atravessar o abismo fundo e largo, não ia chegar ao castelo. Porque o castelo fica numa ilha, bem no meio de um lago enorme.”
“Parece assustador, mas obrigada, seu comerciante. Eu vou para lá”, decidiu a Amanda, e saiu da cidade, sem medo nenhum, rumo às planícies de neve sem fim.
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