Quando o inverno chega e faz muito frio, o açude pode até congelar completamente. O gelo fica firme, e as pessoas podem até patinar sobre ele. Mas, debaixo da superfície, tudo fica escuro, silencioso e gelado.
O mundo lá de cima parece desaparecer para os peixes. A água fica calma, e os peixinhos passam a se mover bem devagar. Nessa época, eles não têm energia para fazer travessuras, brincar e nem nadar à toa.

No açude também vivia uma peixinha chamada Faísca. Ela permanecia perto do fundo, junto dos outros peixes. Sabia que, durante o inverno, precisava poupar as forças. Movia as nadadeiras apenas o necessário. Quando parava, a água ao seu redor quase nem se mexia.
“Por que estamos todos tão quietos?”, perguntou Faísca baixinho.
A velha carpa, que já tinha vivido muitos invernos naquele açude, levantou a cabeça e respondeu com calma: “Porque agora é tempo de descansar e esperar. No inverno, ninguém tem pressa de ir a lugar nenhum”.
Mas Faísca não gostava de esperar. Achava os dias longos e um pouco entediantes. No verão, o açude era cheio de luz, bolhas e movimento. Agora, de vez em quando, ela apenas ouvia o gelo estalar lá em cima. Toda vez, levava um sustinho.
“Será que o gelo está quebrando?”, ela sussurrou.
“Não, não tenha medo, é só o gelo se movimentando. Ele nos mantém em segurança”, tranquilizou a carpa.
Faísca se aproximou ainda mais do fundo e observou a fina lama que se acomodava lentamente. Tudo permanecia em silêncio. Foi então que uma sombra passou rapidamente pela água. Num instante, apareceu. No outro, desapareceu. Faísca ficou paralisada e perguntou: “Vocês viram isso?”.
Das profundezas do açude, veio a resposta: “Sim, era um lúcio”.
Os peixes nadaram para mais perto uns dos outros e ficaram quase imóveis, tentando passar despercebidos. O lúcio era um predador e, mesmo debaixo do gelo, continuava forte. Nadava devagar, mas com firmeza.
Faísca sentia o coração bater mais rápido, embora permanecesse completamente quietinha. Ninguém tentou fugir. No inverno, isso seria inútil. Em vez disso, tentaram passar despercebidos. Depois de alguns instantes, o lúcio se afastou em silêncio e desapareceu nas partes mais profundas do açude. A água voltou a ficar calma.
“Mesmo no inverno é preciso tomar cuidado. Muitas vezes, a calma é a melhor proteção para nós”, disse a carpa.
Os dias sob o gelo não são muito fáceis de distinguir uns dos outros. A luz muda muito pouco. Mas, certo dia, Faísca percebeu que a água estava diferente. Ela viu que mais luz entrava no açude e que o gelo, de vez em quando, estalava mais alto.
“Alguma coisa está acontecendo”, disse ela.
“Sim, é a primavera chegando”, concordou a carpa.
Os peixes começaram a se movimentar mais. Faísca, pela primeira vez depois de muito tempo, subiu nadando para mais perto da superfície. Ela viu os primeiros brotinhos das plantas aquáticas começando a crescer e a água já não parecia tão pesada.
Então, numa manhã, entrou tanta luz no açude que Faísca precisou até fechar um pouco os olhos. O gelo havia desaparecido. A água voltou a se movimentar e o açude parecia respirar outra vez.
“Chegou a hora”, sorriu a carpa.
Faísca fez uma grande curva, depois outra e mais outra. Nadou com uma leveza da qual já quase tinha se esquecido. O inverno foi longo, mas fazia parte da natureza, assim como o verão e os raios de sol. E, mais uma vez, o açude despertou. Junto com ele, toda a vida que existia debaixo de suas águas.