Espreitadores: Comida de gato e o espreitador mais velho do prédio

Hoje à noite vou com o Sardento visitar o espreitador mais velho do prédio. Ele mora lá embaixo, no porão. Dizem que ninguém nunca conseguiu esconder os dedos dele. Nem o nariz. Dizem até que ele teve coragem de entrar debaixo do cobertor de crianças.

Dizem que uma vez ele até mordeu o dedão de alguém junto com um pedaço do sapato! Ele já tem muita experiência em assustar e com certeza vai me ensinar como lidar com essa coisa assustadora que as pessoas usam nos pés.

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Espreitadores Comida de gato e o espreitador mais velho do prédio

Descemos rapidinho pelo atalho até o apartamento do Senhor Carlos, onde o Sardento costuma aprontar. Ainda era começo da noite, e o Senhor Carlos ainda não tinha ido dormir. Ele estava dando comida para o gato e resmungando alto enquanto fazia isso.

“Feijão, por que você fica mordendo os saquinhos de comida? Eu coloco pouca comida no seu potinho, é isso?”

O gato só abaixou as orelhas e ficou esperando pela comida.

“Bom, talvez eu esteja te dando pouca comida. Seu potinho vive vazio. Mas, mesmo assim, acho que você come mais do que os gatos normais”, continuou o Senhor Carlos, colocando o potinho com ração no chão e saindo para ligar a televisão.

Essa foi a nossa chance. Escapamos pela despensa e pelo túnel na parede até o corredor perto da escada. Dessa vez, não usamos o elevador. Também não me arrisquei pelo corrimão. Fomos pulando degrau por degrau. No quarto andar, passamos pela minha marca de lama na parede e continuamos até a porta.

“Ainda anda roubando correspondência, Sardento?”

“Claro. Nada faz um espreitador dormir tão rápido quanto um panfleto de ofertas”, disse Sardento. “Mas hoje não vamos para a caixa de correio. Hoje vamos para o porão. Está com medo?”

“Eu sou um espreitador de prédio! Não tenho medo de nada. Só… só…”

“Só de quê?”

“De galochas. Não dá para morder nem arranhar. Além disso, são enormes e cheiram muito mal por dentro”, confessei.

O Sardento só deu uma risadinha.

“Isso porque você ainda não viu as galochas do Senhor Carlos. Cabemos nós dois dentro de uma só.”

Credo! Me arrepiei. Só de pensar em ficar preso numa galocha, já fico todo desconfortável.

Chegamos ao porão. O cheiro de mofo estava em todo lugar. Tinha teias de aranha nas paredes e tudo lá parecia meio assustador. No meio de um monte de trapos velhos, atrás dos sacos de batata, dois olhos amarelos brilhavam no escuro.

“Quem é que está entrando aqui de novo?”, rosnou uma voz, me fazendo arrepiar até os pelos.

“Sou eu, Sardento. Vim te mostrar meu irmão.”

“Ah, esse é aquele espreitadorzinho que gosta de fazer amizade com crianças. Sinto cheiro de gente vindo daqui. O que vocês querem do velho Hugo, meninos?”

O velho espreitador se desenrolou da pilha de trapos, se esgueirou por trás da bicicleta da Senhora Simone e chegou até nós. Mesmo no escuro, dava para ver que ele usava um casaco de pele preto cheio de fios prateados.

“Viemos perguntar, sábio velho Hugo, se você sabe como resolver o caso das galochas”, gaguejei.

“Essas pessoas”, resmungou o velho Hugo, cansado. “Vivem tão apressadas que nem tiram as galochas pra dormir. Já era de se esperar. Mas isso não vai adiantar nada para elas. Vocês já ouviram falar da força do luar, meninos?”

Os espreitadores balançaram a cabeça.

“Basta que suas garrinhas brilhem com a luz da lua, e elas conseguem arranhar até as galochas.”

De repente, passos se fizeram ouvir e a luz de uma lanterna iluminou o porão. Era uma figura escura segurando a lanterna na mão, com uma meia-calça na cabeça. Ladrão!

Os espreitadores saíram correndo para todos os lados. O velho Hugo se enfiou numa pilha de trapos, dizendo que já estava aposentado e que deixava o serviço para os mais jovens. E os jovens só ficaram se olhando.

Enquanto isso, o ladrão iluminou o porão, procurando algo valioso para roubar. E ele estava de galochas!

“Não tem jeito, temos que agir rápido”, eu disse, saindo correndo em seguida com o Sardento atrás de mim.

Ainda bem que o céu estava limpo e a lua brilhava como o lustre mais bonito no teto do céu. Na hora, mostrei minhas garrinhas e deixei a luz da lua fortalecê-las. E Sardento fez igual.

“Será que isso vai dar conta?”, me preocupei.

“Tem que dar. Não temos tempo. Se a gente demorar, aquele malandro vai roubar a bicicleta da Senhora Simone.”

Voltamos correndo. O Sardento tinha razão: o ladrão já estava se aproximando da bicicleta. Mas ele não achava que a gente fosse chegar. Eu pulei em uma galocha, o Sardento na outra. E começamos a nossa dança arranhadora.

O velho Hugo não mentiu. O luar deixou nossas garrinhas mais fortes e já estávamos nas galochas antes mesmo de você conseguir dizer “prédio”. O ladrão pulava como se estivesse dançando, xingava e gritava, mas a gente ficou bem firme, mordendo e arranhando com toda a força que podia.

O grito do ladrão logo acordou todo o prédio, e as pessoas chamaram a polícia. Esse foi o sinal para a gente de que a nossa parte do trabalho tinha terminado. A partir dali, era a polícia que ia cuidar do ladrão.

“Valeu, Hugo! Amanhã eu trago um lanche para você!”, ainda gritou Sardento antes de a gente escapar pelo buraco para a escada e sair correndo.

Sardento parou no quinto andar e entrou no apartamento do Senhor Carlos.

“O que você está fazendo? Vamos para casa, né?”

“Desculpa, irmão, mas eu testou morrendo de fome. Você também quer? É bem gostoso, faz um croc-croc legal.”

Sardento aproximou o potinho de ração de gato de mim para que eu também pudesse provar. Experimentei. Ele tinha razão: era mesmo gostoso.

Antes de os moradores do prédio levarem o ladrão para o carro da polícia, Sardento e eu comemos toda a tigela de ração de gato. Ainda bem que o Feijão estava dormindo pesado. Acho que, se ele soubesse, ia ficar bravo com a gente.

E agora a gente também vai dormir, porque a manhã já está batendo na porta e, depois da nossa aventura e da barriguinha cheia, vamos dormir como anjinhos. Então, boa noite, e lembrem-se de tirar as galochas antes de dormir!

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