O sol brilhava e sorria como em todo dia de férias na Casa dos Fantasmas. Mas Dentilda não estava sorrindo. Ela olhava para o campo, onde um garotinho corria com seu cachorrinho.
Ela também queria muito ter um bichinho de estimação. Nem precisava ser um cachorro, uma gatinha já bastaria. Mas precisava ser uma gatinha corajosa, para não ter medo dela. Afinal, ela é um fantasma.

O pai e a mãe nem pensavam em ter um bichinho de estimação. E não havia motivo para eles não poderem ter um também. Dentilda entendia que, por exemplo, no caso do Michel, o menininho aquático, só dava mesmo para ter peixinhos. Outro bichinho dificilmente conseguiria viver com eles debaixo d’água. Mas os Fantasmas com Dentes podiam sim ter um bichinho, já que moram de um jeito parecido com o das pessoas.
Naquele dia, a família dos Fantasmas com Dentes foi passear na floresta que ficava na divisa entre Cidade do Medo e o vilarejo das pessoas. Dentilda e Bubizinho só podiam passear ali junto com os pais. Para eles, era sempre uma experiência incrível.
Só que hoje, além dos sons da floresta, ainda dava para ouvir algo bem estranho.
“Bubizinho, para de choramingar, você nem andou metade do caminho ainda…”, repreendeu a mãe.
“Eu não tô choramingando”, se defendeu Bubizinho. “O que você tá ouvindo é algum passarinho manhoso.”
“Deve ser um passarinho famosíssimo piozinho-comum”, falou o pai, tentando parecer muito sabido.
“Pai, esse passarinho nem existe”, sussurrou Dentilda.
“Ah, é mesmo? Assim que a gente encontrar, eu vou dar um nome pra ele, e ele vai existir sim”, decidiu o pai, seguindo o som.
Nem precisou ir longe. O chorinho vinha da beira da floresta. O pai ficou um tempinho olhando para a árvore, para ver se o passarinho estava por lá, mas depois percebeu que o barulho vinha do chão.
No chão, bem na frente do pai, havia uma caixinha jogada fora. E dentro da caixinha, alguma coisa fazia aqueles barulhinhos.
“Olha só, é uma caixinha chorona!”, disse o pai. Ele abriu a caixinha e, na mesma hora, deu um grito quando tirou de lá um gatinho de dentes afiados grudado no seu dedo.
“Ah, que fofura”, começou Dentilda, toda encantada. “De onde ele apareceu?”
“É triste, mas acho que alguém abandonou ele”, disse a mãe. “Tem pessoas que conseguem ser muito malvadas.”
“É um gatinho”, falou o pai, olhando para o filhote que ainda estava pendurado no seu dedo. “E ele é dengoso, estão ouvindo como ele ronrona?”
“Papai, acho que ele não ronrona muito porque está com a boca cheia, me dá ele aqui”, disse Dentilda.
O pai soltou o dedo da boquinha cheia de dentes do gatinho e entregou-o para Dentilda. Ela começou a fazer carinho nele na mesma hora.
“A gente pode ficar com ele? Por favor”, olhou Dentilda para o pai.
“Claro que sim. Já que esse pequenino não tem ninguém”, decidiu o pai.
“Além disso, hoje é dia 8 de agosto, e é o Dia Internacional dos Gatos. É um ótimo dia pra ajudar e mimar os gatinhos”, acrescentou a mãe, fazendo carinho na cabeça do gatinho.
Dentilda quase explodiu de alegria. Com certeza a Fadinha Boa ouviu o pedido dela. Só que a Fadinha Boa tinha um senso de humor meio esquisito.
Quando os Fantasmas com Dentes voltaram do passeio para casa, logo começaram a preparar tudo que o gatinho ia precisar.
“Ele vai se chamar Felpudo”, disse Dentilda.
Mas ninguém acabou chamando ele assim. Quem aparecia para visitar, o gatinho logo mordia. Na perna, no calcanhar, na calça, no sapato ou na mão, se alguém fosse corajoso o bastante para tentar fazer um carinho.
O gatinho virou um guardião com dentes, que protegia seus salvadores. Mas eles, o gatinho não machucava, sabia onde era sua casa e quem era sua família.
E quando, em setembro, as crianças contavam as melhores histórias das férias, Bubizinho e Dentilda também quiseram se exibir.
“A gente tem um novo bichinho de estimação. Um tubarão.”
“O quê? Um tubarão?”, todo mundo se espantou e ficou assustado com o que os Dentuços tinham arrumado.
“Ah, não, esse é só o nome dele. É um gatinho com muitos dentinhos”, explicou Bubizinho rapidinho.
Os outros logo ficaram tranquilos, mas mesmo assim, todo mundo ficava de olho quando o Tubarão passava perto de suas casas.