Dona Neve ficou triste

Na terra ao pé das Montanhas Brancas, o Natal estava chegando, mas, dessa vez, havia algo diferente. As ruas continuavam vazias, a grama no campo seguia verde, e as crianças iam para a escola de galochas em vez de botas. Não havia nem um floquinho de neve, nem aquele cobertorzinho branco que todo ano cobria a vila nessa época.

“Mamãe, quando vai nevar?”, perguntava a menininha Clarinha.

“Não sei, meu anjinho”, suspirou a mamãe. “Nunca aconteceu de a neve demorar tanto assim.”

Histórias para dormir - Dona Neve ficou triste
Dona Neve ficou triste

Os mais velhos começaram a ficar inquietos, as crianças, tristes, e até a feira de Natal parecia meio vazia sem seu manto brilhante. Então, numa manhã, o prefeito decidiu: 

“Precisamos encontrar a Dona Neve. Algo deve ter acontecido. Sem ela, não vai nevar.”

Dona Neve era uma criatura que o pessoal da vila conhecia apenas de ouvir histórias. Diziam que ela morava numa casinha de gelo bem no alto das montanhas. Quando estava feliz, começava a nevar. Quando tudo ficava silencioso, a neve parava de cair. E quando ficava triste, a neve sumia completamente.

O prefeito escolheu, então, um grupo de pessoas corajosas: Tonho, o moleiro; Dona Eva, a professora; e a pequena Clarinha, porque diziam que as crianças conseguiam alegrar até as criaturas mais rabugentas.

Eles partiram bem cedo, enrolados em casacos quentinhos, embora naquela floresta gelada sentissem falta do frio gostoso que vinha junto com a neve. A caminhada foi longa. Seguiram por caminhos de pedra, sob os galhos pelados das árvores, e contornaram o lago congelado, onde dava até para patinar, mesmo sem a cobertura branca. E, apesar do ar gelado, não havia aquele cheirinho de inverno que sempre chegava com os primeiros floquinhos.

Depois de algumas horas, chegaram a uma caverna entre duas pedras altas. Uma luz suave e brilhante se espalhava lá de dentro. 

“É aqui que ela deve morar”, sussurrou Clarinha.

Eles entraram. As paredes estavam decoradas com desenhos de gelo — flocos, bonecos de neve e paisagens de inverno. Tudo parecia sem vida, como se a luz tivesse perdido a força. No meio da caverna, estava sentada Dona Neve. Seus cabelos eram brancos como neve fresquinha, mas agora pareciam quase transparentes. Seu vestido brilhava apenas de leve, como se estivesse coberto por um pozinho de tristeza.

“Dona Neve”, chamou o prefeito, com voz suave. “Viemos perguntar por que neste inverno não está nevando.”

Dona Neve levantou os olhos tristes.

“Ah, meus queridos”, sussurrou ela, “é porque perdi a alegria. Todo ano eu ouço o riso das crianças, o barulho dos trenós e as músicas de Natal. Desta vez, porém, o vento só trouxe reclamações, correria e barulho. As pessoas têm pressa e se esquecem de ficar felizes. E, quando a alegria vai embora, eu não tenho força para fazer flocos de neve.”

Clarinha chegou mais perto.

“Mas a gente está feliz! Muito! Só que, sem neve, não conseguimos imaginar o Natal.”

Dona Neve sorriu só um pouquinho.

“Talvez. Mas minha força está fraquinha. Sem alegria de verdade, eu não consigo fazer nevar.”

Tonho, o moleiro, coçou o queixo.

“E se a gente te mostrasse que as pessoas conseguem ficar felizes mesmo quando nem tudo sai como o planejado?”

A professora Eva começou a cantar uma canção de Natal bem baixinho. Sua voz se espalhou pela caverna como uma brisa quentinha. Clarinha se juntou a ela, balançando um sininho pequenininho que carregava no bolso para dar sorte. Tonho tirou da mochila biscoitinhos de mel fresquinhos, com cheiro de canela, e ofereceu à Dona Neve.

Então, algo começou a acontecer.

O brilho do vestido dela ficou mais forte. Seus cabelos passaram a reluzir como o sol de inverno. A luz nas paredes ganhou vida e dançou por toda a caverna.

“Eu sinto isso”, sussurrou ela. “Calor, alegria, gratidão. As pessoas não se esqueceram de mim.”

Dona Neve se levantou, abriu as mãos e, delas, começaram a surgir pequenos flocos. Eles voavam ao redor dela como estrelinhas, e cada um trazia um novo sopro da força do inverno.

“Vou voltar com vocês”, disse ela. “E vou trazer a neve que vocês merecem.”

Juntos, voltaram para a vila. Quando as pessoas na pracinha a viram, prenderam a respiração. Dona Neve levantou os braços, e o céu acima deles escureceu, como se, por um instante, tivesse chegado a noite. Depois, milhares de floquinhos começaram a cair — delicados, macios e brilhantes.

As crianças gritavam de alegria. Os adultos riam. Toda a vila ficou envolta em um milagre branco. E Dona Neve sorria.

“Enquanto vocês valorizarem a alegria, a neve nunca vai desaparecer”, disse ela, sumindo devagarinho entre os floquinhos.

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