Era uma vez, num tempo que já se foi, uma cidade que ficava além de sete montanhas e sete vales. Nessa cidade, numa certa tarde, nasceu uma menina muito especial. Ela era belíssima e bondosa, mas não conseguia emitir som algum.
Na noite em que nasceu, a família recebeu a visita de uma velha bruxa, que tentou tomar a menina dos pais, mas não conseguiu. Ainda assim, amaldiçoou a criança. A única coisa que poderia quebrar essa maldição era um beijo de amor verdadeiro. Os pais, entristecidos com a maldição, ainda assim se alegraram por terem protegido sua filha. E ela recebeu o nome de Catarina.

Catarina, desde pequena, era muito habilidosa e sábia, mas ninguém conversava muito com ela. Pelo contrário, a maioria zombava dela, achando estranho que não conseguisse falar. O único que conversava com ela era Joãozinho, um rapaz pobre de uma família de lavradores do fim da cidade. Catarina gostava muito dele, e ele sempre a levava até os cavalos para que cuidasse deles, e, às vezes, a conduzia para passear pelo grande descampado atrás de sua casa.
Conforme os anos passaram, Catarina cresceu e se tornou uma bela jovem em idade de casar. Os pais observavam alguns pretendentes para ela, mas era difícil. Sempre que percebiam que ela não falava, os rapazes se afastavam. E Catarina preferia mesmo Joãozinho. Ele era habilidoso, sabia cuidar da propriedade e negociar muito bem. Mas, em casa, ela não podia expressar seus sentimentos, e, mesmo que pudesse, os pais certamente não ficariam contentes se soubessem que ela queria se casar com um simples rapaz do campo.
A decepção veio numa tarde, quando Catarina voltava para casa. Estava, à sua espera, um jovem desconhecido, trajado com roupas finas, que trouxera presentes para Catarina numa caixa. Havia joias e vestidos de seda, inclusive um branco, próprio para casamento.
“Encontramos um noivo para você, Catarina. Este moço, Paulo, é de uma família de comerciantes. Você vai se dar muito bem com ele!”, disse o pai.
Ela, infeliz, nem sequer esperou e saiu correndo. Não podia dizer aos pais que não desejava desposar um homem que não conhecia nem amava. Somente o amor verdadeiro poderia quebrar a maldição, e ela jamais se casaria com alguém que não amava.