
Histórias para Dormir
Sobre o castelo roubado
Num reino muito, muito distante, vivia um rei sábio. Ele era justo e governava todo o seu reino com cuidado e sabedoria. Esse rei tinha um castelo magnífico, todo de vidro, à beira de um lago cristalino. Vocês devem estar se perguntando como um castelo de vidro aguentava tempestades de granizo. É que ele tinha sido construído, muito tempo atrás, por um feiticeiro malvado.
O avô do rei tinha derrotado o feiticeiro malvado e tomado dele as botas mágicas. Desde então, o feiticeiro não conseguia mais fazer mágica. O avô do rei o expulsou do reino e trancou as botas no porão, para que o feiticeiro nunca mais as encontrasse.
Um dia, chegou ao rei um mensageiro do reino vizinho com uma notícia: a princesa de lá estava procurando um noivo à altura, que fosse rico, bonito, sábio e que lhe desse uns sapatinhos que nenhuma outra princesa tivesse.
Na mesma hora, o rei encomendou a um mestre lá da China uns tamancos de borracha cheios de furinhos e correu para levá-los à princesa. Fez uma reverência e entregou os sapatinhos.
“Aqui estão uns sapatinhos leves e resistentes, que com certeza nenhuma outra princesa por aqui tem”, disse o rei.
“Esses trecos furados e feios, aqui qualquer criada usa. Com você eu não me caso, rei”, respondeu a princesa, e mandou pôr o rei para fora.
Mas o rei não desanimou. No mesmo dia, encomendou um par de botas a um mestre da borracha e voltou correndo para a princesa.
“Aqui estão umas botas altas e resistentes, que dá até para andar dentro da água. Aposto que nenhuma princesa tem uma coisa dessas”, gabou-se o rei.
“Por acaso eu sou alguma moça da roça que cuida dos porcos, para andar de galocha?”, ofendeu-se a princesa. “Leve essas suas botas velhas e suma da minha frente.”
Então o rei pegou as botas e tomou o caminho de volta. Pela estrada, ficou pensando por que diziam que aquela princesa era humilde e gentil, se ela fazia tudo ao contrário. Aí ele se lembrou de umas botas que ninguém mais no mundo tinha: as botas do feiticeiro, trancadas no porão.
E assim, o rei pegou as botas mágicas e as levou para a princesa. A princesa ficou encantada.
“Ah, essas botas, sim, são lindas! Quero calçar agora mesmo”, ordenou.
Mal ela calçou as botas, aconteceu uma coisa que ninguém esperava. Uma névoa espessa envolveu a princesa e, quando a névoa se desfez, no lugar da princesa estava o feiticeiro malvado, de botas e tudo.
“Ha, ha, ha! Caiu direitinho, seu reizinho bobo!”, riu o feiticeiro. “E agora eu vou pegar o meu castelo de volta!”
“Onde está a princesa?”, perguntou o rei.
“Eu enfeiticei a princesa. Agora ela é um ratinho cinza”, gabou-se o feiticeiro, balançando uma gaiolinha onde um ratinho estava todo encolhido. “De agora em diante, o único rei por estas bandas sou eu.”
E o feiticeiro desapareceu.
O rei voltou para casa, mas, no lugar onde ficava o seu castelo de vidro, não havia mais nada. O feiticeiro não tinha deixado nem um caquinho.
“Feiticeiro, feiticeiro malvado, devolva o meu castelo! Eu te desafio para um duelo!”, gritou o rei, porque era muito corajoso. E também era sábio o bastante para saber que, se não pegasse o castelo de volta, não ia ter nem onde dormir à noite.
O feiticeiro apareceu de repente diante do rei.
“Aceito o desafio. Você nunca vai me vencer. Pelo, pelão, cresce de montão!”
Antes que o rei se recuperasse do susto, o feiticeiro jogou um feitiço nele. No começo, não aconteceu nada. Depois, o rei reparou que tinha nascido um pelo preto no queixo dele. Saiu correndo para buscar uma pinça numa casinha ali perto. Mas, antes de chegar lá, já estava todo peludo. Nasciam pelos nas mãos, nas pernas, no peito, nas costas, no bumbum e no rosto, e ele ficou parecendo um macaco. Para isso, pinça nenhuma dava conta. Então ele chamou o barbeiro real e mandou raspar tudo. Mas, mal o barbeiro terminou, o rei já estava peludo de novo.
“Espere, Majestade, tenho aqui uma navalha especial de vidro, que ganhei da minha bisavó muito tempo atrás. Vou barbear Vossa Majestade com ela, mas em troca eu queria um par de sapatos. Meus pés estão congelando.”
“Isso não é problema. Olhe só que tamancos macios e bonitos eu tenho aqui.”
“Eles são lindos, meu rei. Obrigado.”
E assim o barbeiro barbeou o rei com a navalha de vidro. Os pelos sumiram e nunca mais cresceram. Mas aí apareceu o feiticeiro malvado, furioso porque o rei tinha se livrado do feitiço com tanta facilidade.
“Está bem, eu devolvo o seu castelo”, disse o feiticeiro. Fez um gesto com a mão e o castelo apareceu no lugar de antes.
O rei, todo contente por finalmente ter onde passar a noite, correu para os seus aposentos. Mas tinha alguma coisa errada. Dentro do castelo fazia um frio de rachar e o vento corria por todos os cômodos.
“Feiticeiro, seu trapaceiro, onde estão todas as portas?!”, gritou o rei furioso.
“Ha, ha, ha”, riu o feiticeiro. “Você mandou eu devolver o castelo. Das portas você não falou nada.”
“Se você não é covarde, pegue a sua espada e venha lutar comigo de homem para homem!”
“Mas é claro”, disse o feiticeiro, e sacou a espada. Mas antes ainda murmurou baixinho um feitiço: “Lama, lamaçal, poça sem igual!”
Em volta do feiticeiro surgiram umas poças fundas e lamacentas, tão grandes que nem o homem mais alto do mundo conseguiria atravessar ou pular.
“Vamos lutar, rei! Mas primeiro você tem que chegar até aqui!”, ria o feiticeiro, mostrando a língua para o rei.
Mas o rei era esperto. Calçou as galochas que a princesa tinha recusado e atravessou as poças até o feiticeiro. Com um golpe, arrancou a espada da mão dele. Com o segundo, quase cortou a cabeça dele, mas o feiticeiro, muito sem-vergonha, sumiu bem a tempo. Na mesma hora, todas as portas do castelo voltaram para os seus lugares. Mas o rei ainda não estava satisfeito.
“Volte aqui, seu covarde, e me devolva a princesa!”
“Que tal a gente disputar a princesa?”, sugeriu o feiticeiro, e fez aparecer no chão fogo e pedras em brasa. Atrás disso tudo, pôs a gaiola com o pobre ratinho.
Ele sabia muito bem que as botas de borracha do rei não resistiriam ao fogo.
“Quem chegar primeiro até a gaiola ganha e fica com a princesa”, disse o feiticeiro, com um sorriso torto.
“Muito bem”, disse o rei esperto. “Como você já perdeu duas vezes, você começa.”
O feiticeiro deu um sorrisinho e saiu andando pelas pedras em brasa. Mas nem as botas mágicas dele aguentavam fogo: começaram a chiar e a pegar fogo. O feiticeiro uivava feito lobo e pulava feito uma bailarina maluca. As botas logo viraram pó e, junto com elas, sumiram todos os feitiços. O fogo também desapareceu.
Então, o rei correu e pegou a gaiola com a princesa, enquanto o feiticeiro estava sentado no chão, soprando seus pés queimados.
“Seu malandro, me enganar desse jeito! Você me paga!”, resmungou o feiticeiro.
“Eu venci. Transforme o ratinho de volta em princesa.”
“Você não é o rei esperto? Então não está vendo que as botas mágicas queimaram? Agora eu não sei mais fazer mágica.”
O rei ficou triste. Afinal, como ia se casar com um rato e fazer dele a sua rainha? Mas, pensando bem, por que não? Ele até que gostava de bichos.
Então tirou o ratinho da gaiola, ergueu-o na palma da mão até a altura dos olhos e disse: “Minha princesa, quer ser a minha rainha? Desde o primeiro instante em que a vi, me apaixonei. Tudo bem que, naquela hora, era o feiticeiro disfarçado, mas isso é só um detalhezinho.”
E então o rei deu um beijinho no focinho do ratinho. De repente, já não era um rato que estava na mão dele, e sim uma princesa! Ela era bem mais pesada que um rato, e o rei quase caiu no chão. Mas logo se equilibrou, pegou a princesa no colo e foi com ela para o seu castelo de vidro. Lá os dois se declararam, teve um casamento famoso, e eles governam o reino com sabedoria até hoje.
E o feiticeiro? Como não sabia mais fazer mágica, teve que trabalhar para ganhar a vida. Pelo resto da vida, teve que polir o castelo de vidro para não ficar nem uma manchinha nas paredes. E, se esquecesse alguma, de castigo tinha que correr em volta do castelo de galocha nos pés.
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