
Histórias para Dormir
O menino que decidiu não ter medo
No porão tinha alguma coisa. E uma coisa horrível: disso o Mateuzinho tinha certeza. Só não sabia o que era, porque de manhã a lâmpada de lá tinha queimado e ninguém tinha trocado ainda.
E ainda por cima o Mateuzinho estava sozinho em casa. Os pais tinham ido à cidade fazer compras. Antes de uma hora, com certeza não iam voltar. E, de qualquer jeito, o que eles iam fazer? Na certa iam achar que o Mateuzinho estava inventando.
Ele engoliu em seco, criou coragem e começou a descer a escada bem devagarinho. Levava uma lanterna, mas coragem para acendê-la, isso não tinha nem um pouco. E também não tinha uma coisa ainda mais importante: um plano do que fazer.
Não só tinha alguma coisa no porão, como ela era completamente diferente de tudo o que o Mateuzinho já tinha encontrado. Fazia barulho. Do farfalhar baixinho, foi virando uma barulheira cada vez maior. Uma coisa batia nos canos, tilintava na lata e se arrastava. O Mateuzinho falou, meio inseguro.
— Tem alguém aí? Ou alguma coisa? — perguntou. E, mesmo sem esperar resposta, ela veio.
— Estou aqui — respondeu a coisa, e além dos outros barulhos ainda soltou um uivo de gelar o sangue.
— E o que é você? — perguntou o Mateuzinho, criando coragem de novo.
— Sou um monstro horrível — veio lá do porão. — Sou uma fera de outro mundo e daqui a pouco posso te fazer em pedacinhos.
Aí o Mateuzinho se assustou de verdade e começou a recuar devagar até a porta de saída.
— Sou a mais assustadora de todas as assombrações, a mais escura de todas as escuridões. Ninguém me escapa. Vou te pegar, nem que você esteja no fim do mundo.
E depois a coisa ficou um tempão ameaçando, quase sempre prometendo que ia comer o Mateuzinho ou fazê-lo em pedaços. Só que a voz que tanto queria assustá-lo não parecia voz de um bicho grande e forte. Era fininha, insegura e, para falar a verdade, até bem delicada.
O Mateuzinho ouvia tudo aquilo enquanto recuava para a porta. Mas já não estava com tanto medo: uma vozinha daquelas não ia assustá-lo por muito tempo. E de repente ele teve uma ideia.
— E se você é tão forte e terrível como diz, por que não sobe aqui? Alguma coisa me diz que você não está falando a verdade. E eu não tenho medo de você!
— Pois então eu vou subir! — respondeu a coisa, e a barulheira parou.
O Mateuzinho esperou, pronto para fugir, sem tirar os olhos da porta fechada do porão. Logo a porta rangeu, se abriu um pouquinho e… escada acima começou a subir um gato malhado, bem comunzinho. O Mateuzinho sorriu. Ele sempre tinha gostado de gatos.
O gato olhou para o Mateuzinho e falou com voz de gente.
— Eu sou aquilo que você quer que eu seja. Se você tivesse se assustado e fugido, eu seria um monstro de verdade. Mas você decidiu não ter medo, então eu não vou ser assustador. Vou ser um gato nada assustador. E vou ficar um tempinho com você — disse o gato, e pulou no sofá da sala.
— Mas… — Que história era aquela! O Mateuzinho tinha tantas perguntas!
— Gato não fala — cortou o gato, se enrolou feito um novelo e dormiu. Mas um pouquinho depois abriu um olho e acrescentou: — Não esqueça que agora você tem um gato e precisa cuidar dele.
O gato não falou mais nada naquele dia, nem em nenhum outro. Os pais, como era de se esperar, não acreditaram na história do Mateuzinho. Acharam que ele tinha inventado para explicar de onde tinha saído aquele gato em casa. Mas eles gostavam de bichos, e por isso deixaram ele ficar com o gato.
E o Mateuzinho? Cuidou do gato, é claro. E nunca mais teve medo do desconhecido. Ele lembrava que o medo, até então, nunca tinha lhe trazido nada de bom. Mas a curiosidade, essa sim.
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