
Histórias para Dormir
O dragão que tinha um passatempo diferente
O Eustáquio não era um dragão comum.
E não era por causa da aparência, não. Ele parecia completamente normal, para um dragão, é claro. Tinha dez metros de altura, uma bocarra enorme cheia de dentes e era todo coberto de escamas brilhantes. E as asas, então! Quando ele as abria, uma sombra enorme caía no chão lá embaixo.
Ou seja, o Eustáquio parecia um dragão de verdade. Mas de que adiantava, se o nosso herói não estava contente? Nem um pouco, nem um pouquinho.
Os pais dele, os tios, as tias e os primos eram os monstros mais terríveis a oeste das Montanhas do Dragão. Só de ouvir os nomes deles tremiam os reis e até as menores criaturinhas. Os irmãos e as irmãs do Eustáquio saíam uma vez por ano em longas expedições para espalhar medo e pavor.
Só que o Eustáquio não se animava nem um pouco com as diversões tradicionais dos dragões. A família e os conhecidos mais distantes viviam repetindo que ele já devia decidir o que queria fazer da vida e tomar jeito. — Sossegue, Eustáquio — diziam. — Rapte uma princesa de vez em quando, ataque alguma cidade, peça resgate em ouro e pedras preciosas… enfim, faça alguma coisa da sua vida!
E o Eustáquio fazia, sim, alguma coisa. Só que bem diferente do que aquela família assustadora imaginava! Aquele dragão de bom coração preferia passar os dias inventando versinhos, tocando violão ou recitando os seus trechos favoritos de peças de teatro. Resumindo: o dragão Eustáquio tinha alma de artista.
Tocava, cantava e sonhava com a cabeça nas nuvens, até que um dia simplesmente foi embora voando. E no reino dos dragões ninguém nunca mais o viu.
Enquanto isso, o Eustáquio voou primeiro para o sul e depois para o oeste. Lá longe avistou uma cidade, desceu depressa e pousou bem na frente do portão.
Como você pode imaginar, os moradores da cidade, quando viram aquilo, deram o alarme na hora. Um dragão grande daqueles podia queimar todas as casas com um só sopro de fogo! Por isso o rei chamou os seus cavaleiros mais corajosos para enfrentar o monstro.
Os cavaleiros saíram pelo portão da cidade em direção à fera, que esperava logo do lado de fora das muralhas. Mas quando já estavam enfileirados, prontos para atacar o dragão, o Eustáquio falou com eles com sua voz poderosa:
— Que bom que vocês vieram! Eu estou mesmo precisando de plateia!
E aquele dragão gigante tirou um violãozinho minúsculo e começou a dedilhar as cordas, de leve, com as garras. Do violão saiu uma melodia linda, como nem aqueles cavaleiros nem nenhum outro cavaleiro do mundo jamais tinham ouvido.
Depois o dragão começou a cantar. E cantava tão bonito que todo mundo ficou sem fôlego. Ele mesmo tinha composto a música. A letra era sábia e comovente: dizia que cada um escolhe quem vai ser.
Todos que ouviram o canto do dragão naquele dia pararam para pensar na própria vida. E cada um ficou um pouquinho melhor. Um dos cavaleiros jogou a espada e o escudo no chão e voltou para casa, para se dedicar ao que mais gostava: plantar tulipas. Outro pensou bastante e partiu mundo afora em busca de aventuras e de felicidade.
Quando o dragão terminou de cantar, da cidade veio um aplauso. Primeiro baixinho e tímido, depois cada vez mais alto. Os moradores, que um instante antes tinham medo do dragão enorme, agora batiam palmas e pediam bis.
E o Eustáquio? Depois daquela apresentação, a fama dele se espalhou por toda parte e ele virou artista andarilho. Mas nada disso teria acontecido se ele não tivesse tido coragem de fazer uma coisa que ninguém da família dele jamais tinha tentado. Até hoje o Eustáquio viaja de cidade em cidade fazendo shows que sempre juntam multidões. E canta para elas que vale a pena ser diferente dos outros e seguir, ou voar, pelo seu próprio caminho.
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