
Histórias para Dormir
O Chico, a baleia que defendeu o mar
Os oceanos surgiram há quase quatro bilhões de anos. Tanto tempo assim a gente nem consegue imaginar. E também é difícil imaginar quanta água existe nos oceanos e quantas criaturas marinhas, que não dá nem para contar, vivem neles.
Mas existem na Terra seres que sabem mais. Animais enormes e sábios, que nadam nas ondas há séculos e séculos. Quem são eles e o que sabem fazer? Esta história fala de um deles e da sua habilidade misteriosa. Mas atenção, psiu! É um segredo, e você não pode contar para ninguém.
Debaixo das ondas azuis e cheias de espuma, ia nadando o Chico. Ele era tão grande que parecia partir a água ao meio. Os cardumes de peixes desviavam dele e se espalhavam para os lados, e ele impunha tanto respeito que até os tubarões fugiam. É que o Chico era uma baleia-azul, uma das maiores baleias do mundo. E, como toda baleia, gostava mais que tudo de ordem. Cuidava para que todos os animais do oceano vivessem em equilíbrio.
O Chico nadava muitas vezes no oceano gelado em volta da Antártida, se empanturrando de krill. São uns crustaceozinhos miudinhos, que as baleias comem. O Chico sempre fazia exatamente o que uma baleia que ama a ordem deve fazer. E nunca reclamava. Nem quando tinha que nadar para muito longe num sábado à noite para resolver coisas importantes, nem quando o almoço atrasava porque o krill tinha ido nadar em outro lugar.
Mas até uma baleia tão calma, que ama a ordem, pode ficar brava com alguma coisa. E um dia aconteceu algo que fez o Chico pensar: Ah, isso já é demais! Começaram a aparecer pessoas por ali. Pescavam peixes. Muito mais peixes do que alguém conseguiria comer. Mais até do que o Chico comeria, se ele comesse peixe.
Os pescadores de que o avô do Chico ainda se lembrava se contentavam com pouco. Mas esses, não. Por causa da ganância, perturbavam a paz das baleias, a paz do mar e de todos os seus moradores. E ainda por cima esticavam na água umas redes enormes, em que sempre algum bicho ficava enroscado. O Chico vivia tendo que soltar alguém. E, o que era pior, muitos golfinhos, tubarões e outras criaturas grandes não escapavam sem arranhões.
O Chico olhava aquilo com tristeza. Mas você precisa saber que as baleias são, acima de tudo, animais que não têm medo de agir. Chega! Aquilo já era demais! O Chico decidiu usar a última arma que tinha e quebrar uma regra antiquíssima, que toda a sua família seguia.
Que regra? O avô do Chico dizia assim: “Nunca converse com os macacos de duas pernas que andam de barco.” Pois é, você ouviu bem. As baleias e muitos outros animais do mar sabem falar todas as línguas das pessoas, só que as pessoas, claro, não sabem disso. Mas os gigantes do mar não fazem isso com muita frequência. Primeiro, porque isso deixaria as pessoas bem atordoadas, já que a cabeça humana não aguenta aquelas vozes de trovão. E segundo, porque, na opinião das baleias, pouquíssimas pessoas teriam alguma coisa interessante para responder.
Mas dessa vez o Chico não via outra saída. Ele precisava parar aqueles pescadores sem juízo! Então nadou até o barco deles e subiu à superfície.
— Tratem de dar o fora! — trovejou. — E que eu não veja mais vocês por aqui!
E, ao mesmo tempo, deu uma rabanada ameaçadora no casco do barco, para deixar bem claro que com baleia não se brinca. Os pescadores ficaram com um medo como nunca tinham sentido, mas entenderam na hora. Já iam indo embora quando o Chico os fez parar.
— Um momento, um momento — disse ele, sério. — Levem essas redes horríveis com vocês! Só tomem cuidado para nada ficar enroscado nelas. E digam a todos os outros pescadores que, quando vocês saem para o mar, vocês aqui são só visitas. Parem de tirar mais do que o mar oferece!
Os pescadores, apavorados, fizeram tudo num piscar de olhos. Soltaram das redes duas águas-vivas e um arenque, deram meia-volta com o barco, e nunca mais ninguém ouviu falar deles. Dizem que todos que estavam a bordo naquele dia, quando voltaram para casa, decidiram mudar de profissão. Alguns foram trabalhar numa loja, outros começaram a trançar cestos de vime. E o capitão e o marinheiro se juntaram às pessoas que cuidam para que ninguém tire do mar mais do que deve.
Mas sobre o que encontraram nas ondas, não contaram nada para ninguém. Também, ninguém ia acreditar que eles tinham encontrado uma baleia falante.
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