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Miguel, a horta da escola e as fadas – história infantil

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Miguel, a horta da escola e as fadas

Sofia P.4 de outubro de 20268 min de leiturapara a idade escolar

As aulas de ciências, que eram uma vez por semana na horta da escola, agradavam a quase todo mundo. Quase: o Miguel era a exceção. Ele não entendia para que servia plantar florzinha e mexer na terra. E, além disso, ninguém o ajudava. As outras crianças trabalhavam em grupinhos de dois, de três ou de quatro, e viviam rindo e brincando. Só o Miguel ficava sempre sozinho. Ninguém o queria no seu grupinho.

Podemos até ficar com pena dele, mas não vamos esquecer que a culpa era do próprio Miguel. Ninguém gostava dele porque ele vivia implicando com as outras crianças. Cutucava, caçoava e fazia pirraça: nisso ele era um verdadeiro campeão. Não é de admirar que os colegas não quisessem trabalhar com ele na horta.

Quando chegou mais uma sexta-feira, e com ela a aula de ciências ao ar livre, o Miguel estava sozinho de novo. Devagar, suspirando, tirou as ferramentas do armário da escola e foi atrás dos outros lá para fora. Nada de interessante o esperava ali: mais quarenta e cinco minutos chatos de grama, folhas e mato.

Só que aquela sexta-feira não ia ser nada chata, mesmo que o Miguel ainda não soubesse. Começou a trabalhar bem devagar, fazendo tudo o mais lentamente possível, só para ver se o sinal tocava logo. Nem olhou para as florzinhas que tinha que plantar. Quem ia ligar para elas? E provavelmente continuaria pensando assim, se do canteiro de tulipas, em que ele tinha acabado de esbarrar, não tivesse saído uma voz fininha, mas bem clara: — Ai! O que é que você está fazendo?

O Miguel se virou, olhou para o canteiro, para a esquerda, para a direita, mas não viu ninguém. “Acho que eu cochilei. Também, com uma chatice dessas!”, pensou. Só que aí a vozinha das tulipas falou de novo.

— Mas que menino mal-educado! Eu vou te ensinar a ter modos!

O Miguel olhou com atenção para as flores e, dessa vez, viu quem estava falando com ele. No meio de uma florzinha amarela e vermelha estava uma figurinha minúscula com asinhas que brilhavam com todas as cores do arco-íris. Usava calças marrons e um casaquinho verde, e estava com as mãozinhas fechadas na cintura. Era mesmo pequenininha. E estava muito brava.

— Estou sonhando? — perguntou o Miguel com a voz fraquinha, olhando em volta, inseguro, para que as outras crianças não o ouvissem.

— Sonhando! Bem que você queria! Para sonhar com uma fada, é preciso merecer, fazendo o bem às flores e às pessoas. E você é conhecido mais por ser um menino chato!

O Miguel se eriçou todo. — Como é que você fala assim comigo, sua pestinha? Você não é muito maior que um besouro, por que é que está se metendo?

Só por aí já dá para ver que o Miguel não era só desagradável, mas também bem bobinho. Todo mundo sabe que as fadas das flores são as mais poderosas de todos os seres mágicos das plantas. Quem mexe com elas sempre se arrepende.

O Miguel descobriu isso em poucos segundos. Do chão brotaram raízes fortes e flexíveis, que o agarraram pelo tornozelo. O Miguel caiu estatelado no chão, e as outras crianças riram. E não foi só isso. Em toda a volta dele, a terra ficou verde de urtiguinhas minúsculas, que mesmo assim queimavam bastante. É assim que as fadas das flores fazem: nunca machucam as pessoas de verdade, mas quando alguém as ofende, sabem dar uma lição. Uma lição curtinha: as raízes e as urtigas sumiram debaixo da terra tão depressa quanto tinham aparecido. O Miguel sentou, todo confuso, e soltou, bravo:

— O que foi isso? Doeu!

— Doeu, é? — A fada da tulipa olhou para ele, pensativa. — Mas acho que bem menos do que dói nas florzinhas quando você pisa e estraga. E nem vou falar das outras crianças. Você sabe como dói nelas quando você caçoa? Sabe que elas se sentem como se cem urtigas queimassem e nunca mais sumissem? É por isso que você não tem amigos!

O Miguel já ia responder alguma coisa, mas parou. E pensou de verdade. Às vezes é difícil entender como os outros se sentem por nossa causa, até a gente passar por uma coisa parecida. O Miguel era mesmo insuportável, mas não queria de verdade machucar as outras crianças. Ele tinha tanto medo de que não gostassem dele que tentava parecer mais importante e melhor. Só que, com isso, conseguiu justamente aquilo de que tinha medo, e ficava cada vez mais sozinho.

— Você pode mudar isso — disse a fada das flores, que, pelo jeito, sabia ler pensamentos muito bem. — Hoje é sexta-feira, a aula está acabando. Quando chegar em casa, pense em como você poderia, já a partir de segunda-feira, consertar o que estragou.

Ah, como é poderosa a magia das fadas das flores! Por quê? Ora, o Miguel, que nunca tinha aceitado conselho de ninguém, dessa vez obedeceu. Depois da aula, foi para casa e ficou pensando. E, mesmo sem inventar nada de extraordinário, o que ele pensou foi o bastante.

Durante a semana seguinte inteira, em cada recreio, ele foi procurar os colegas que já tinha magoado de algum jeito. O que tinha acontecido ele não podia mais mudar, mas podia dizer: — Eu não entendia o que estava fazendo. Fui muito bobo. Me desculpe, de verdade. Você me dá mais uma chance? — E foi exatamente isso que ele disse. E funcionou: a magia das fadas das flores, a magia de uma palavra gentil e de um esforço sincero.

Bastaram algumas semanas, e o Miguel já não trabalhava mais sozinho na horta da escola. Agora tinha em volta uma turma alegre de amigos e se esforçava muito para não perder de novo a confiança deles. Descobriu que muitas crianças iam gostar dele, se ele mesmo deixasse. O Miguel ficou mais feliz, mais atento, e o trabalho no meio das florzinhas não era mais nada chato. Enquanto cuidava delas, ouvia a risadinha baixinha das fadas, e nos ouvidos dele soavam novos conselhos sobre como fazer alguma coisa boa.

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