O menininho que beliscava todo mundo

Era uma vez, há muito tempo, em algum lugar, um menininho chamado Frank. Esse menininho tinha uma coisa ruim. Toda vez que podia e alcançava alguém, ele beliscava. Se fosse só de brincadeira, talvez todos achassem graça. Mas Frank beliscava tão forte que todo mundo sentia dor. Os pais dele falavam, falavam, mas não adiantava. Nada funcionava com o Frank.

Quando ia para a escolinha, ninguém queria brincar com ele. As crianças estavam todas beliscadas, reclamando e chorando. Até mesmo as professoras foram beliscadas pelo Frank e nem as broncas adiantaram. Logo o proibiram de ir para o jardim de infância. Mas e a escola? Lá ele tem que ir, não tem? 

Histórias para dormir pequenas - O menininho que beliscava todo mundo
O menininho que beliscava todo mundo

Os pais receberam uma ordem do diretor para que o Frank parasse com os beliscões, senão ele não poderia mais frequentar a escola. Porque só vão para a escola crianças boazinhas e esforçadas, que querem ouvir suas professoras legais, e não serem atrapalhadas por alguém que vai machucá-las e beliscar. O diretor também não queria ser beliscado por ninguém. 

Quando Frank adormeceu naquele dia, o pai e a mãe se sentaram à mesa da cozinha, colocando compressas geladas nos braços beliscados pelo filho. Enquanto isso, conversaram sobre o que fazer a respeito.

“Já tentamos de tudo”, suspirou a mãe.

“Ainda não tentamos especialistas em comportamento infantil”, sugeriu o papai. “Um amigo do trabalho me contou que o filho deles vivia cutucando o nariz. Bastou uma sessão com o doutor Vitor e o problema sumiu.”

“Você acha que ele daria conta dos beliscões também?”, sussurrou a mãe, para não acordar o Frank.

“Com certeza. Assim que amanhecer eu ligo para ele”, decidiu o pai.

Não demorou muito e Frank foi com os pais fazer um passeio até a casa do doutor Vitor. Frank se divertiu o caminho todo beliscando os bancos do carro com os dedinhos e depois o casaco da mãe. Ainda bem que do assento dele ele não alcançava mais nada. 

Na sala de espera do doutor, Frank achou tudo muito divertido. Tinha muitos bichos de pelúcia sentados por lá, e ele podia beliscar todos eles. Mas logo isso perdeu a graça, porque os bichinhos de pelúcia não faziam nenhum barulho. Por isso ele queria beliscar o pai. Ele só olhava preocupado para os quadros pendurados nas paredes da sala de espera. Em um deles, tinha um menininho que comia lápis de cor, com a boca toda cheia de farelos coloridos. No outro, uma menininha sentada ao lado de uma pilha de brinquedos quebrados, destruindo uma boneca. 

“Viu, mamãe? Essas devem ser crianças já curadas”, sussurrou o pai.

“Ai! Frank, isso dói!”, disse a mãe repreendendo o Frank, que não se impressionou com os quadros e já estava ficando entediado.

Ainda bem que a porta se abriu e a enfermeira os chamou para entrar e ver o doutor. O doutor Vitor era um senhor com cabelos brancos compridos. Ele olhou para o Frank por cima dos óculos grossos.

“Então, mostra aí, garoto”, falou o doutor.

Frank não pensou duas vezes, chegou perto dele e já beliscou a mão dele. Depois, na mesma hora, beliscou a orelha, a bochecha e o nariz dele.

O doutor não falou nada. Só balançou a cabeça.

“Vocês tentaram colocar luvas nele?”, perguntou então.

“Ah, claro. Ele sempre tirava elas. E não podemos colar, como é que ele ia escrever na escola? E como é que ele ia se lavar?”, dizia a mamãe.

“Tá bom, tá bom. Se vocês não querem abrir mão de uma bobagem dessas, como pensam curar esse problema?”, resmungou o doutor Vitor.

A mãe até queria discutir, porque se lavar e ir à escola não são bobagens, mas preferiu ficar quieta. O doutor ficou com uma cara super irritada. Talvez tivesse sido culpa do Frank, que conseguiu, sem ninguém perceber, se enfiar debaixo da cadeira dele e, por entre as ripas, beliscou o bumbum do doutor.

“Ai! Esse é um caso sério, para o qual nenhum remédio resolve”, disse o doutor. “Eu sugiro uma solução cirúrgica. Ou seja, amputar os dedos. Ou, quem sabe, as mãos inteiras, até o pulso.”

Os pais se assustaram e começaram a reclamar, dizendo que isso era demais, que aquilo não era tratamento nenhum, que iam pra casa imediatamente, e que o doutor que amputasse os próprios dedos, ou até mesmo a cabeça, porque pelo visto já não servia pra nada se sugeria tais coisas.

Na noite seguinte, os pais estavam de novo na cozinha, tristes com o fracasso. Além disso, as beliscadas do Frank ficaram ainda piores. Até os vizinhos já reclamaram que não conseguem voltar para casa. Frank ficou a tarde toda parado na porta de entrada e beliscava todo mundo que queria passar. 

O pai folheava o jornal em silêncio, a mãe refrescava a cabeça dolorida com um pano molhado. De repente, o pai bateu a mão na mesa.

“Já sei!”

“Shhh, assim você vai acordar ele e vai começar tudo de novo”, advertiu a mamãe.

Olha aqui, o pai apontou o jornal animado e leu: Ensine as crianças a valorizar o conforto. Deixe eles experimentarem um pouquinho da Idade Média. A escola interna de cavaleiros conserta qualquer travesso.

“Isso é ótimo! Só espero que saibam lidar com ele”, preocupou-se a mãe. 

Mesmo assim, a decisão foi tomada. Já no dia seguinte, Frank foi para a escola de cavaleiros. Os pais e vizinhos ficaram aliviados, ninguém mais era beliscado e não precisavam mais ter medo do pequeno Frank. 

E como foi que Frank se saiu na escola de cavaleiros? Bem. Além de estudar, ele ainda tinha que ajudar a cozinhar a comida junto com os outros. Lá não tinha nenhum celular, nem televisão, e até a água para tomar banho os alunos e seus professores precisavam esquentar no fogo, como as pessoas faziam antigamente. 

Além disso, os professores eram todos cavaleiros, que usavam armaduras pesadas e nem sentiam os beliscões. E depois de alguns dias, Frank teve que começar a lidar com outros problemas, como acender o fogo, por exemplo. 

Então, crianças, valorizem o que vocês têm. E o mais importante: valorizem seus pais cuidadosos e nunca os machuquem. Senão, vocês podem acabar como o Frank.

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