
Histórias para Dormir
João e a princesa encantada que virou árvore
Em um reino muito, muito distante, vivia um rapaz preguiçoso chamado João. Em vez de ajudar os pais em casa, ele só ficava deitado na cama. Já era quase adulto e ainda queria que a mamãe lhe desse comida na boca, penteasse seu cabelo e escolhesse sua roupa.
Um dia, a mãe perdeu a paciência, bateu na mesa e disse:
“Assim não dá mais! Você é um homem grande como uma montanha, mas se comporta como um bebê. Levante-se, vista-se sozinho, penteie o cabelo e vá fazer alguma coisa da vida!”
João ficou tão surpreso que começou mesmo a se vestir. Mas, como era a primeira vez, fez uma grande confusão. Colocou as calças nos braços, a camiseta nas pernas, as meias nas orelhas e a cueca na cabeça. E, nos braços, calçou os sapatos! Assim todo atrapalhado, saiu da casa. O pai lhe entregou uma trouxinha com pãezinhos doces.
“Querido João, é hora de você ir pelo mundo. Você já é um rapaz crescido e está na hora de se mexer. Quer dizer, de trabalhar, então pare de balançar os braços. Vá e encontre a sua felicidade.”
João pendurou a trouxa no braço e saiu emburrado. Mal tinha passado da vila e já sentia as pernas doendo.
“Ai, minhas perninhas, minhas perninhas coitadinhas!”, resmungava tão alto que até um passarinho apareceu.
“Você é um bobão, João”, piou o passarinho. “Tire os sapatos das mãos e coloque nos pés. Assim vai ser bem mais fácil andar. Piu, piu, piu!”
João se sentou numa pedra e, depois de duas horas tentando, finalmente conseguiu calçar os sapatos. Mas logo começou a chorar de novo:
“Ai, meus pezinhos! Esses sapatos são tão duros que estão machucando meus dedinhos!”
Seu choro acordou uma coruja sábia que dormia num buraco de árvore. Ela espiou lá fora e piou alto:
“Você é um bobão, João! Tire as meias das orelhas e coloque-as nos pés, depois calce os sapatos direito. E então suba a colina. Hu, hu, hu!”
João passou um tempão tentando descobrir como se coloca as meias, mas no fim conseguiu e subiu a colina como a coruja mandou. Lá no alto havia uma casinha. Já era noite, então ele bateu na porta.
Um lenhador abriu, achou estranho aquele rapaz com cueca na cabeça, mas o deixou entrar.
“Não posso te dar nada pra comer, porque eu mesmo não tenho nada”, disse o lenhador.
“Tudo bem”, respondeu João. “Eu divido meus pãezinhos com você, já que cortar árvores não anda dando para o seu sustento.”
“Nem posso mais!”, lamentou o lenhador. “É proibido cortar qualquer árvore no reino inteiro. De onde você veio, que não sabe disso?”
“Da vila de Cima de Baixo. Até hoje, eu nunca me interessei muito pelo mundo. Mas por que não pode cortar árvore?”
“Porque uma delas é a nossa princesa encantada. E ninguém sabe qual é. A bruxa que lançou o feitiço mora numa caverna lá nas pedras e, dizem, come gente viva! Ninguém tem coragem de chegar perto.”
João coçou a cabeça e disse:
“Pois amanhã mesmo eu vou até lá. Mas me empresta o seu machado, ele só está aí pegando poeira, mesmo.”
“Está bem, João, o machado é seu. Mas, por favor, antes de sair de manhã, vista-se direito: a camiseta vai nos braços e a calça nas pernas. Assim fica mais fácil pra você.”
Na manhã seguinte, João se vestiu direitinho (exceto pela cueca que continuou na cabeça, porque ele esqueceu) e foi com o machado até a caverna da bruxa.
“Ei, sua velha, apareça aqui! O bravo cavaleiro chegou pra salvar a princesa!”, gritou da entrada.
De dentro da caverna saiu uma velhinha corcunda, toda esfarrapada, com uma verruga enorme no nariz. Ela olhou pra ele e caiu na risada. Riu tanto que chegou a rolar no chão.
“Você? Um cavaleiro? Um bobão que nem sabe se vestir sozinho? Como acha que vai conseguir salvar a princesa, cavaleiro de Cuecópolis?”
“Chega de conversa, vovó. Me diga logo qual árvore é a princesa.”
“Uma delas é, sim. À noite, ela se transforma em uma fada e dança no campo. É pra não ficar com as pernas duras de madeira, he, he, he! Você tem três dias e três noites para descobrir qual árvore é ela. Se acertar, eu a liberto do encanto, deixo vocês irem embora e ainda te ensino a usar cueca do jeito certo. Se errar, fico com essa cueca e te transformo em um vaso sanitário. Já está na hora de eu ter um desses na caverna!”, disse a bruxa, rindo.
“Combinado!”, respondeu João.
Ele foi até a clareira onde, à noite, a princesa encantada dançava. E era verdade! Quando a lua subiu, ela apareceu linda, leve e encantadora. João ficou hipnotizado, mas sabia que precisava agir. Correu para a floresta e começou a derrubar árvores, uma por uma, com o machado.
“Ai, ai, minhas mãozinhas! Estou cheio de calos!”, gemia João, cansado.
A coruja ouviu o lamento e voou até ele.
“Por que está derrubando a floresta, João?”
“Porque preciso encontrar a princesa. À noite ela dança, mas de dia vira árvore. Se eu cortar todas, vai sobrar só ela!”
“E, se eu não achar a princesa, aquela bruxa me transforma em vaso sanitário e vai me usar todo santo dia… se é que você me entende, corujinha!”
A coruja chamou os castores para ajudar João. Mesmo assim, depois de duas noites cortando sem parar, ainda restavam muitas árvores. Só na terceira noite, exausto e com as mãos cheias de bolhas, João viu que todas as árvores, até onde a vista alcançava, estavam no chão.
Quando a princesa apareceu de novo, ele correu até ela. Mas ela se assustou ao ver um homem de machado e cueca na cabeça e fugiu. João foi atrás, tropeçando nos troncos, mas sem desistir.
No meio da correria, o sol começou a nascer. João esticou a mão, fez biquinho para dar um beijo nela e, de repente… PUF!
A princesa virou árvore bem na hora, e ele deu de cara no tronco.
“Ai, minha boquinha coitada!”, gemeu. “Mas consegui saber qual é a princesa!”
A bruxa apareceu, dando risada.
“Você venceu, cavaleiro de cueca na cabeça! Vou te dar a princesa.”
Ela transformou a árvore em uma linda moça e sussurrou para João o segredo de usar cueca do jeito certo. Ele tirou a cueca da cabeça rapidinho e a escondeu atrás das costas. A princesa caiu na risada, feliz por estar livre.
No caminho de volta, João devolveu o machado ao lenhador e agradeceu. Logo houve um grande casamento no castelo. João se casou com a princesa, aprendeu a se vestir direito e governou o reino com sabedoria e alegria.
Desde então, os dois viveram felizes e fizeram do reino um lugar cheio de risadas — e com as cuecas sempre no lugar certo.
Contos para crianças em fase escolar Contos sobre árvores Histórias curtas para dormir Historinhas de princesa




O que você achou da história?