
Histórias para Dormir
O menino inocente
Era uma vez uma vovó e um vovô que moravam com o netinho. Da primavera até o outono, todo santo dia, os dois iam trabalhar na roça ou no mato, e o netinho ficava sozinho em casa. Mas sempre avisavam: “Seja obediente e não abra a porta para ninguém, viu?”
Um dia, a vovó e o vovô saíram de novo para trabalhar na roça. Na hora de sair, a vovó ainda disse ao netinho: “Hoje eu fiz ervilha para você, que eu sei que é o que você mais gosta. Seja bonzinho, não abra a porta para ninguém, que daqui a pouco eu volto com o vovô.”
O menino disse sim para tudo e, assim que a porta se fechou atrás da vovó, foi brincar. Logo bateu uma fome, e ele foi comer a ervilha que a vovó tinha feito. Mal começou a comer, apareceu na janela a cabeça ruiva de uma raposa. E a raposa foi logo dizendo: “Menininho, me dá um pouco de ervilha, que no meu rabo eu te levo pela trilha!”
Mas o menino não queria dividir a ervilha, e além disso não podia abrir a porta para ninguém. Só que a raposa choramingava, implorava e batia na porta, até que o menino amoleceu. Ele já tinha comido ervilha até não aguentar mais, então foi devagarinho até a porta, pensando se abria ou não. A raposa espertalhona sentiu que era a sua chance e prometeu de novo, com voz bem doce: “Vamos lá, menino, me dá um pouco de ervilha, que no meu rabo eu te levo pela trilha! Vamos passear pelo banco, vamos passear pela casa de canto a canto!”
E o menino abriu a porta e deixou a raposa entrar. “Toma a ervilha, pode comer”, ofereceu. A raposa engoliu a ervilha num instante, botou o menino em cima do rabo e saiu correndo com ele pelo banco, pela casa toda e depois para a estrada. Da estrada para o campo, do campo para o mato e, vupt, direto para a toca da raposa. E lá o menino ficou preso com ela.
Quando a vovó e o vovô voltaram para casa, encontraram a porta escancarada, e o menino não estava em lugar nenhum. A vovó chorava e chorava. O vovô deu a ela primeiro um lenço e depois um tamborzinho. “Não adianta chorar, vovó. Pega este tamborzinho. Eu levo a rabeca e vamos procurar o nosso menino.” O vovô pegou ainda um saco, e lá se foram os dois atrás do neto.
Procuraram um tempão, até que foram parar na floresta. Passando perto da toca da raposa, acharam que estavam ouvindo o menino chorando lá dentro. Na mesma hora, os dois souberam o que fazer. A vovó começou a bater o tamborzinho, o vovô tocou a rabeca, e os dois cantaram juntos: “Temos em casa uma rabeca e um tamborzinho, na toca tem três raposinhas e o nosso menininho!”
A raposa velha estava tirando uma soneca depois do almoço, e aquela barulheira a acordou. Toda mal-humorada, mandou a raposinha mais nova lá para fora: “Vai lá e diz para esses músicos pararem já com essa cantoria, que eu quero dormir!”
Mal a raposinha botou o focinho para fora da toca, o vovô agarrou e enfiou no saco. E os dois começaram de novo a tocar e cantar: “Temos em casa uma rabeca e um tamborzinho, na toca tem duas raposinhas e o nosso menininho!”
“Não é possível, eles não vão parar!”, a raposa velha ficou ainda mais brava. Então mandou a segunda raposinha lá para fora com o recado: “Diz para esses musiquinhos irem tocar em outro lugar, por favor, para eu finalmente poder dormir.”
A segunda raposinha espiou para fora da toca, querendo dar o recado, mas o vovô não pensou duas vezes: agarrou a raposinha e enfiou rapidinho no saco.
E os dois começaram de novo a tocar e cantar: “Temos em casa uma rabeca e um tamborzinho, na toca tem uma raposinha e o nosso menininho!”
“Quer dizer que hoje eu não vou dormir?!” A raposa ficou uma fera e saiu correndo, toda irritada. Queria dar uma bronca naqueles musiquinhos de meia-tigela, que não deixavam ninguém dormir. Mas, antes que conseguisse dar um pio, o vovô já tinha agarrado a raposa e enfiado no saco junto com as outras duas.
O vovô amarrou o saco com as três raposas dentro e deu umas boas sacudidas nele com um galho, para elas aprenderem. Só depois desamarrou o saco e soltou as raposas. Elas saíram correndo como se o pelo estivesse pegando fogo.
Agora só faltava tirar o menino da toca. O menino abraçou a vovó e o vovô e prometeu: “Juro que nunca mais vou cair na conversa mole de raposa nenhuma. Por favor, não fiquem bravos comigo e me desculpem.” A vovó e o vovô ficaram tão felizes de ter encontrado o neto que o desculparam na hora. E viram, pela carinha dele, que dessa vez podiam acreditar na promessa.
E, desde então, a vovó, o vovô e o menino viveram felizes na sua casinha, e nenhuma raposa ruiva chegou perto de lá nunca mais. Afinal, a região inteira ficou sabendo o que o vovô faria com elas!
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