
Histórias para Dormir
A tília e as abelhas
Era uma vez, na beira de uma floresta muito, muito antiga, um grupinho de tílias frondosas. E no meio delas, uma tília pequenininha, bem novinha, que ainda não entendia como as coisas funcionam no mundo das árvores.
As tílias conversavam entre si, mas não usavam muitas palavras. A conversa delas soava como uma canção lenta e melodiosa, com a qual elas se misturavam ao mundo em volta. Cantavam “primavera, primavera…”, e a primavera chegava.
Cantavam “verão, verão…”, e o solzinho mostrava mesmo do que era capaz. Cantavam “outono, outono…”, e nas tardes frias as folhas que caíam farfalhavam junto com a canção.
Mas no inverno as tílias não cantavam. E era justamente do inverno que a tília pequenininha e novinha tinha mais medo. Ela não sabia o que era o inverno nem o que a esperava. Mas tinha ouvido dizer que ia perder as suas lindas folhinhas novas. Quem ela seria depois? O que ia acontecer com ela? Bem que ela queria fugir disso, mas as tílias mais velhas só suspiravam. Elas sabiam que o mundo é assim.
Logo depois que o primeiro verdinho começou a espiar por baixo da neve, a seiva que leva a vida acordou debaixo da casca das tílias. Pensamentos cheios de força corriam pelas árvores cada vez mais fortes e corajosos, até que, por fim, animados pelo solzinho e pela chuva, brotaram nos galhos como folhinhas novas.
Depois da primavera veio o verão, e as tílias o festejaram com uma porção de flores perfumadas. A tília pequenininha e novinha aproveitou o verão ao máximo: a cada dia enxergava mais longe e crescia mais alto. Só que não conseguia parar de pensar no que viria depois.
E talvez ela ficasse com medo até o inverno, se nas suas flores não tivessem pousado as abelhinhas trabalhadeiras e sábias de um enxame ali perto. As abelhinhas são mesmo uns insetos mágicos: não só sabem onde encontrar o melhor pólen, como também percebem como se sente a planta que o oferece. E assim, logo que chegaram à beira da floresta, rodearam a tília novinha com o seu zumbido e perguntaram por que ela estava com medo.
— Tenho medo de perder as minhas folhas no inverno, abelhinhas! Não sei o que isso quer dizer. Não sei o que acontece com as árvores no inverno. Eu preferia que o inverno nunca chegasse — disse a tília novinha.
As abelhinhas zumbiram bem baixinho, para acalmá-la, e deram uma voltinha em torno dela.
— Tiliazinha! Ter medo não é nada de errado, mas não há motivo. Assim como nós rodeamos as flores de vocês, tudo no mundo anda em roda. Andam em roda as nuvens e as horas do dia, os passarinhos e as estações do ano. No inverno você vai descansar no friozinho, e na primavera a sua força vai voltar.
A pequena tília ficou pensando um pouquinho.
— E as minhas folhinhas? Elas são tão bonitas, eu não quero perdê-las!
— As suas folhinhas também vão voltar. Vão crescer maiores e mais fortes. Tudo anda em roda, tudo volta, tudo muda. E toda mudança é uma coisa desconhecida. Ter medo não é nada de errado, mas não há motivo.
A pequena tília não entendeu muito bem o que as abelhinhas queriam dizer, mas ficou um pouco mais aliviada. Depois do verão, afinal, tinha que vir o outono, quando as árvores deixam as coisas velhas para trás, e depois o inverno, a época do sono. O inverno chegou, e a tília viu que as abelhinhas tinham razão. Não foi fácil, mas passou, porque tudo um dia passa. E quando, na primavera, os galhos ficaram verdes de novo com folhinhas fresquinhas, a pequena tília, já um pouquinho mais velha, pensou que não via a hora de rever as abelhinhas naquele ano. Não podia esquecer de agradecer a elas, porque tinham lhe ensinado uma coisa muito preciosa: que, mesmo no tempo mais difícil, a esperança pode estar com a gente.
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