
Histórias para Dormir
A princesa que não podia sair da torre
Pelos contos de fadas, a gente sabe muito bem que, de vez em quando, as princesas ficam presas em torres. Às vezes quem as prende são o rei e a rainha, às vezes uma bruxa malvada. E aí as princesas ficam esperando um príncipe que venha libertá-las e levá-las para longe, bem longe, onde vão viver felizes para sempre.
Só que a nossa princesa não estava presa. Ela morava numa torre, é verdade, mas só porque era ali que ela mais gostava de morar. A ideia tinha sido dos pais dela, o rei e a rainha, isso também é verdade. Mas eles não queriam escondê-la do mundo.
A torre virou a casa da princesa simplesmente porque dali se tinha a vista mais bonita. Senão, a princesa Felícia – era esse o nome da nossa heroína – não poderia olhar a qualquer hora as florestas, os campos e o horizonte que tanto a encantavam.
É que, pouco depois de nascer, a Felícia ficou muito doente. Ela sarou, mas as perninhas ficaram paralisadas. Não conseguia andar sozinha, e por isso os pais reais faziam de tudo para que isso a entristecesse o menos possível. Foi por isso que deram a ela o quarto mais alto e mais bonito do castelo inteiro.
O rei e a rainha amavam muito a filhinha e cuidavam para que nada lhe faltasse. Todo dia os criados vinham buscar a Felícia com uma liteira e a levavam para passear no jardim e no bosque ali perto. A princesa tinha sempre à mão os seus docinhos preferidos, livros, instrumentos musicais e um monte de vestidos lindos. Nunca lhe faltava papel nem tinta, e das suas mãos habilidosas nasciam desenhos de paisagens sonhadas e desconhecidas.
O rei e a rainha gostavam tanto da filha que mal cabiam em si de alegria quando começou a frequentar o castelo um príncipe extraordinariamente bonito e rico. Ao príncipe Fernando não faltava nada: só de olhar para ele, todo mundo ficava admirado. Só não tinha ainda uma esposa, e quem ele escolheu foi justamente a Felícia dos cabelos dourados. Então pediu ao rei a mão dela, e o rei, todo feliz, concordou.
Só que a Felícia via as coisas de outro jeito. O Fernando podia até ser bonito, mas era chato demais. E ainda por cima metido: perto dele, a Felícia não se sentia bem. Quando ele falava alguma coisa, era quase sempre sobre ele mesmo. Todo aquele mundão do lado de fora das janelas do castelo, cheio de maravilhas, que a princesa tanto queria conhecer, não lhe interessava nem um pouco.
O dia do casamento chegava a passos largos, e a Felícia ficava cada vez mais aflita. Ela até podia enfrentar os pais, mas sabia que eles só queriam o melhor para ela. Uma noite, como de costume, ela estava sentada na janela da torre, cantarolando uma música sobre terras distantes e pensando no futuro, que parecia bem tristinho.
De repente… uma segunda voz se juntou à música dela! A Felícia olhou para baixo e viu um rosto conhecido. Era o Mateus, um rapaz simpático que trabalhava no sítio da beira dos campos. De vez em quando os dois conversavam, quando a princesa espiava pela janela.
Nem ela sabia por quê, mas resolveu desabafar com ele.
— Mateus, estou com uma preocupação enorme.
— Sinto muito! E o que foi que aconteceu, princesa?
— Meus pais querem me casar com o príncipe Fernando, e já daqui a duas semanas. Mas ele é insuportável como poucos! Vai me trancar no castelo, e eu nunca mais vou ver o mundo distante que eu tanto gosto de desenhar.
O Mateus conhecia os desenhos da Felícia. Ela jogava para ele lá da torre, e ele não se cansava de olhar. E, sem que a princesa soubesse, ele os guardava no bolso do casaco, pertinho do coração. Mas agora só pensava em como a Felícia estava triste. Ele não entendia nada dos assuntos de nobres, príncipes e reis, mas mesmo assim tentou dizer alguma coisa.
— Ah, princesa, a senhora merece alguém que vá com a senhora até o fim do mundo! Merece paisagens que ninguém viu e vistas que ninguém nunca desenhou! Eu levaria a senhora até lá!
— Mas como, Mateus? Você sabe que as minhas pernas são doentes. Não posso sair correndo para onde eu quiser — suspirou a princesa.
— Isso não importa, princesa. Eu construiria uma carroça que levasse a senhora a todo lugar, e atrelaria nela um cavalo que nunca falhasse. Eu sei construir qualquer coisa!
— Obrigada, meu bom Mateus, mas não tem jeito. Esse é o meu destino.
E assim a triste Felícia chegou ao dia do casamento. Logo de manhã vieram as criadas e a vestiram com um vestido que brilhava de pedras preciosas. Depois, num cortejo solene, a levaram para a capela enfeitada, cheia de convidados. Mas naquele dia nada a alegrava.
A princesa virou a cabeça para a porta aberta por onde, um instante antes, tinha entrado o seu futuro marido, o príncipe Fernando, de armadura completa. Ele nem olhou para ela. Em compensação, olhou bem em volta para ver se todo mundo estava reparando como a armadura polida dele brilhava.
“Estes são os meus últimos momentos de liberdade”, pensou a Felícia. “Vou demorar para ver de novo os meus queridos bosques e campos, se é que vou ver.”
E nessa hora, lá de fora, do pátio, ela ouviu um relincho bem claro. Mas não era o cavalo nobre em que o Fernando tinha vindo do seu castelo. Não, aquele era um som forte, de bicho da roça, como o que se ouvia muitas vezes na primavera e no verão, vindo dos campos onde os lavradores trabalhavam.
A Felícia sentiu a esperança acordar no seu coraçãozinho gelado.
— Me levem para o pátio! — pediu ela aos criados, sem ligar nem um pouco para os pais, que não concordavam, nem para os convidados importantes, que ficaram espantados.
E no pátio, quem estava esperando era ele. O Mateus! O simples rapaz do sítio da beira do campo, que durante duas semanas inteiras não parou de pensar na tristeza da Felícia. Mas ele não ficou só pensando, ah, isso não! O forte cavalo preto do Mateus estava atrelado a uma carroça como o mundo nunca tinha visto. Tinha bancos acolchoados e um cantinho para descansar, uma mesinha pequenininha e um armarinho. E do lado estava presa uma sela com umas correias especiais, da qual ninguém conseguiria cair.
— Princesa! Este é o meu presente de casamento para a senhora. Construí esta carroça para que a senhora possa ir sempre aonde quiser!
— Ah! — A princesa não sabia o que dizer. Mas uma coisa ela sabia: aquilo, sim, era lealdade de verdade! Para que ela ia querer um príncipe que só pensava em si mesmo?
Então ela disse só: — Nada de princesa: Felícia! — e o Mateus ficou vermelho até as orelhas de tanta alegria. E logo em seguida: — Mateus, querido amigo, me leve daqui! Me leve para as terras que eu desenhei!
O Mateus, que era um rapaz decidido e esperto, não precisou ouvir duas vezes. Correu até a liteira, pegou a Felícia no colo, deu uma volta com ela de tanta alegria e depois a sentou na carroça como se fosse uma rainha.
Os convidados, que tinham corrido até a porta da capela, ficaram sem fôlego. O rei e a rainha pareciam congelados. Mas a cara mais boba de todas era a do príncipe Fernando: parecia que ele não entendia que o seu sonho de mandar no castelo tinha acabado de virar fumaça.
— Vamos viajar! — exclamou a Felícia, rindo com uma risada de sininho. — Mamãe, papai, por favor, a minha felicidade está em algum lugar lá fora. Não corram atrás de nós! Vamos mandar cartões-postais para todos vocês!
O rei e a rainha não entendiam muito bem por que a filha preferia um rapaz da roça a um príncipe. Mas sabiam que ela nunca tinha parecido tão feliz.
Então não foram atrás do Mateus nem da princesa. E os dois mandaram mesmo cartões-postais para todo mundo. Eram pequenas obras de arte, com desenhos da Felícia e com histórias do Mateus, que sabia contar muito bem.
Os cartões daquela dupla extraordinária chegavam mês após mês, de lugares de que ninguém no reino tinha ouvido falar. Do mundo distante, bem distante, que a Felícia tanto gostava de desenhar. E viu só? Onde existe amor, e amor de verdade, sempre se encontra um caminho.
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