
Histórias para Dormir
A aventura dos três amigos
Três amigos, Lucas, Paulo e Kiko, foram à feira depois da escola. Lá estava um homem, todo vestido de preto e com uma barba comprida, que falou com eles: — Estão procurando alguma coisa? Os meninos disseram que não e seguiram em frente.
Ficaram um tempo olhando o que se vendia aqui e ali e depois foram para casa. Quando passaram pela barraca onde aquele homem tinha falado com eles, ele se debruçou por trás do balcão e jogou alguma coisa dentro da mochila do Kiko. Era sexta-feira, e os meninos combinaram de ir à noite para a casa do Paulo jogar videogame. Encontraram-se às seis em ponto e começaram a jogar. Quando terminaram uma partida, o Kiko disse:
— Olhem o que eu achei na minha mochila. — E tirou um jogo de tabuleiro bem esquisito.
— Onde você arrumou isso? — estranharam os amigos.
— Não faço ideia. Achei quando estava tirando as coisas da mochila depois da escola — respondeu o Kiko.
Ficou um silêncio, e depois o Paulo disse:
— E se a gente experimentasse?
O jogo era todo preto, gasto e cheio de coisas escritas numa língua estranha. O Kiko e o Lucas não estavam com muita vontade.
— Não, não, eu prefiro jogar isso fora — disse o Lucas.
Mas o Paulo não sossegava e continuava insistindo com os meninos.
— Ah, vai, só uma rodadinha e depois a gente joga fora — pedia ele.
No fim, o Kiko topou e, junto com o Paulo, convenceu também o Lucas. Eles não sabiam direito como se jogava, então simplesmente pegaram as peças e foram mexendo pelo tabuleiro do jeito que dava na telha. Mal abriram o jogo, começaram a acontecer coisas estranhas.
Do lado de fora da porta, alguma coisa batia e, de repente, do nada, caiu um temporal e começou a chover a cântaros. Na internet, os meninos descobriram que era um jogo de esconde-esconde: era preciso levar uma bandeira de um lugar para outro sem que os adversários vissem. Passaram quase duas horas, então eles guardaram o jogo e, como tinham prometido, jogaram no lixo. O Kiko e o Lucas resolveram que já iam para casa. Todos se levantaram da mesa e foram para a porta. Mas, quando saíram, perceberam que não estavam na casa do Paulo. O jogo devia ter levado os três para outro lugar. E, ainda por cima, eles não estavam sozinhos naquela casa. Os meninos não sabiam onde estavam e começaram a pensar…
— O que está acontecendo? — perguntou o Lucas. — Eu sabia que tinha alguma coisa errada com esse jogo. A gente devia ter deixado para lá.
— E se a gente ainda estiver jogando, só que agora de verdade? — pensou o Kiko.
Nessa hora, um homem chegou perto deles e disse:
— Sim, é o mesmo jogo, só que de verdade. Vocês precisam encontrar o jogo de tabuleiro que jogaram fora e colocá-lo aqui, nesta prateleira.
— Ei, vocês viram? Ele é igualzinho àquela peça com que a gente estava jogando agora há pouco — cochichou o Kiko.
— Então vamos nessa — disse o Paulo.
Mas o homem interrompeu de novo:
— Lembrem-se: vocês não podem ser pegos.
— E se alguma coisa pegar a gente? — perguntou o Lucas.
— Aí o jogo recomeça, e vai se repetir assim sem parar. Se vocês não cumprirem a missão direitinho, nunca vão sair daqui — respondeu o homem, e foi embora.
Os meninos estavam no porão, e o jogo estava no lixo, no andar de cima. Eles tinham que atravessar a casa inteira, encontrar o jogo e levá-lo de volta ao porão, sem deixar ninguém pegá-los. Logo na escada, avistaram outra figura e se esconderam rapidinho atrás da porta. O Paulo espiou o corredor.
— Não tem ninguém, podemos ir — cochichou ele.
Foram em direção à cozinha e, nisso, pela outra porta, entrou mais uma figura – parecia um cavalo. O Paulo não conseguiu se esconder a tempo, e o cavalo o viu. Saiu correndo atrás dele, e o Paulo corria em volta da cozinha, jogando debaixo dos cascos dele tudo o que encontrava pela frente.
O Kiko pulou para perto da porta da despensa e gritou:
— Traz ele para cá, a gente tranca ele aqui!
E o Paulo fez isso. Correu para a despensa, com o cavalo atrás. No último instante, pulou para o lado, e o Lucas empurrou o cavalo lá para dentro. O Kiko e o Lucas seguraram a porta, e o Paulo a bloqueou com a mesa.
— Isso não tem graça nenhuma, pessoal — suspirou o Paulo.
— A gente precisa se concentrar. A gente consegue — disse o Kiko, e os outros concordaram.
Agora só faltava chegar ao andar de cima. Essa era a parte mais difícil, porque a escada era vigiada por um javali, que não saía do lugar.
— Temos que armar uma armadilha para ele — sugeriu o Lucas.
O Kiko e o Paulo concordaram, e todos puseram mãos à obra.
Depois de um tempinho, estava tudo pronto. O Paulo subiu a escada, apareceu para o javali, e ele saiu correndo atrás dele na mesma hora. Quando o javali chegou ao pé da escada, os meninos puxaram uma corda, que amarrou as patas dele. O javali não conseguia se mexer, e os meninos subiram correndo e tiraram o jogo do lixo.
— Ué, por que isso não acaba? — estranhou o Paulo. — A gente já está com o jogo.
— Mas ainda temos que levar de volta para o porão — lembrou o Lucas.
Foram, então, para a escada que descia e ficaram de boca aberta. O javali, que pouco antes estava ali amarrado, tinha sumido.
— Ele deve ter se soltado — disse o Lucas.
— Tudo bem. Acho que a gente tem que correr até lá o mais rápido possível — disse o Kiko.
Combinaram rapidinho um plano e uma senha. Quando estavam prontos, o Lucas gritou:
— Agora!
E correram para o porão o mais rápido que conseguiam. Nos últimos degraus, o javali farejou os três e disparou atrás deles. O Paulo e o Lucas ficaram para trás, mas o javali nem ligou para eles. Só queria saber do Kiko, que estava com o jogo. Já estava quase alcançando o menino quando o Kiko deu um pulo, caiu perto da cômoda e colocou a caixa em cima dela. Na mesma hora, o javali desapareceu.
— Acho que a gente conseguiu — suspirou o Paulo.
— Tomara — disse o Lucas.
Percorreram todo o térreo, e não havia mais nenhuma figura em lugar nenhum. Subiram até o sótão e lá encontraram os pais do Paulo.
— Oi, meninos, onde vocês estavam? Estávamos procurando vocês — disse a mãe do Paulo.
— No porão. Estávamos jogando um jogo de tabuleiro — respondeu o Paulo, como se nada tivesse acontecido.
O Kiko e o Lucas foram correndo para casa. No dia seguinte, a caminho da escola, jogaram a caixa com o jogo numa lixeira, e nunca mais aconteceu com eles nada tão estranho. E nunca mais brincaram com coisas que ganharam de estranhos ou que acharam por aí.
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