Num velho campo, entre fileiras de trigo dourado, estava um espantalho chamado Vítor. Todos os dias ele contemplava o horizonte, onde o sol nascia e se punha, e à noite escutava o sussurro do vento entre as espigas. Sua missão era espantar os pássaros que queriam se banquetear com a colheita, e levava isso muito a sério.
Mas, embora Vítor fosse um excelente espantalho, algo lhe faltava. Os dias eram silenciosos, longos e vazios. Ninguém falava com ele, ninguém sorria quando inventava versinhos com gravetos e palha. Sentia-se muito solitário.

Numa manhã, quando o vento novamente lhe fez cócegas sob o chapéu, disse consigo:
“Assim não pode continuar! Vou embora mundo afora. Talvez encontre alguém que não tenha medo de mim e converse comigo.”
Tirou o chapéu, despediu-se do campo, e partiu através dos sulcos e descampados. Aonde quer que chegasse, os bichinhos fugiam diante dele.
“Socorro, um espantalho!”, gritou o esquilo, subindo na árvore.
“Tem as mãos de palha! E o chapéu como asas de morcego!”, exclamou o ratinho, sumindo no buraco.
“Ele certamente veio nos assustar aqui também!”, resmungou o corvo.
Vítor ficou muito triste com aquilo. Não queria machucar ninguém. Apenas desejava alguém que conversasse com ele, que risse, ou que talvez até descansasse com ele sob uma árvore. Saiu da trilha da floresta e sentou-se sob o velho carvalho. Naquele momento, ouviu um suave estalar de palha.
“Posso me sentar?”, disse uma voz delicada.
Vítor se virou surpreso. Diante dele estava uma espantalha assustadora, mas bela. Tinha uma saia feita de cortina velha, olhos de botões azuis e uma fita vermelha ao redor do pescoço.
“Meu nome é Clara. Eu também saí pelo mundo afora. No meu campo já não precisavam mais de ninguém.”, disse, sorrindo.
Os olhos de botão de Vítor se iluminaram. Conversaram a tarde toda — sobre pássaros, tempestades e sobre como às vezes é difícil ser espantalho.
No dia seguinte, decidiram partir juntos. Caminharam pela região até encontrarem um campo abandonado no alto da colina. Grão a grão, os cereais começaram a brotar ali novamente. E assim se estabeleceram — um numa extremidade do campo, o outro na outra. Todas as manhãs acenavam com seus chapéus e todas as noites sussurravam histórias que inventavam.
E, embora os pássaros já soubessem que não precisavam temê-los, voavam sempre respeitosamente sobre o campo, pois sabiam que ali moravam dois bons espantalhos que haviam encontrado o mais precioso de tudo: um ao outro.