Espreitadores: A grande mudança

Desde que aconteceu o grande casamento, as coisas começaram a acontecer. Nossa família ficou maior. 

Um dia à tarde, a mamãe simplesmente voltou para casa trazendo um bebê no colo. Desde então, eu e o Sardento quase não dormimos, e o resto da família também não. O bebê chorava bastante, então eu ia até ele de noite e esquentava sua barriguinha. Parecia que assim ele dormia melhor. 

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Espreitadores A grande mudança

Teve uma vez que eu dormi tão pesado que a mamãe me encontrou lá. Só que ela também quase não dormia por causa do bebê, então só me empurrou para o lado como um ursinho de pelúcia, deu de mamar para o bebê e depois colocou ele de volta no berço. E assim, em vez de virar um monstro assustador, virei um guardião. 

O Sardento teve mais dificuldade. Depois do casamento, o Senhor Carlos e a Senhora Simone decidiram vender os apartamentos e se mudar para o interior, para uma casinha. E como todo mundo deve ter seu espreitador debaixo da cama, o Sardento vai se mudar junto com eles. Vou sentir muita saudade dele, mas ele me ensinou a usar o telefone, então a gente vai se falar de vez em quando. E quem sabe, talvez a gente se visite algum dia. 

À noite, o Sardento pegou as coisas do nosso cantinho, desceu até o quinto andar e foi colocando tudo de mansinho na mala do Senhor Carlos. 

“E como você vai viajar? No porta-malas?”, perguntei para ele, observando enquanto ele colocava na bolsa do Senhor Carlos um monte de panfletos de promoções do ano retrasado. Pelo menos o Senhor Carlos finalmente vai reencontrar sua correspondência.

“Claro que não. Quero ficar olhando pela janelinha no caminho”, explicou Sardento. “Preciso entrar no carro à noite e me esconder embaixo do banco para me levarem para a casa nova.

Ele tinha planejado tudo muito bem. Só tinha esquecido de uma coisa. Ele não sabia em qual carro deveria entrar. A gente deu a volta no bairro todo para ver os carros que tinham para poder escolher o do Senhor Carlos. Mas havia realmente muitos.

“O do Senhor Carlos com certeza é esse vermelho aqui”, ele me mostrou na frente da casa.

“Desculpa, mas no escuro todo carro é preto”, eu disse.

“Maninho, acende a lanterna. Eu vou entrar.”

Eu acendi como ele mandou, mas, opa! Mais uma cilada. O carro, para nossa grande surpresa, estava trancado. Tentei me esgueirar para dentro, mas acabei disparando o alarme. 

O Senhor Carlos veio correndo, desligou o alarme, deu algumas voltas ao redor do carro e entrou de novo.

“Olha só, é dele mesmo”, sorriu Sardento vitoriosamente. “Vou passar por aqui, é túnel pra todo lado, cheio de mangueirinhas e tubinhos.”

“Eu não sou especialista, mas não tem um motor aí?”

Mas o Sardento já não me ouvia mais. Entrou e ainda gritou: “Então fica bem aí e boa sorte com as crianças!”

De manhã, o Senhor Carlos e sua esposa colocaram as malas no carro, se acomodaram e estavam prontos para partir. Eu estava olhando pela janela porque queria acenar para o Sardento. Só que o carro não pegava. O motor engasgou várias vezes, quicou e morreu.

O Senhor Carlos correu para fora do carro, levantou o capô e ficou um tempo mexendo no motor. 

“O cabo soltou”, avisou depois de um tempo. “E tem alguma coisa aqui, alguma coisa… meu Deus, é um gatinho!”

A Senhora Simone saiu correndo do carro e logo apertou aquele bichinho preto e sujinho contra o peito.

“Com certeza ele ficou com frio aqui durante a noite, coitadinho, tomara que nada tenha acontecido com ele. Ele deve estar com fome. Você acha que ele vai aguentar a viagem?”

O Senhor Carlos decidiu que ele com certeza vai aguentar a viagem e, em casa, vão dar comida para ele e o deixar bem quentinho.

“Pelo menos o Feijão vai ter um amigo”, sorriu o Senhor Carlos.

Eu não sorri. Eu dei uma gargalhada e quase perdi o fôlego de tanto rir. Coitado do Sardento! Mas, na verdade, por que coitado? Ele vai ficar bem. Do jeito que o conheço, vai fugir logo na primeira noite e ficar mordendo e arranhando todo mundo. Mas vai que ele aprende a valorizar uma casinha quente, comidinha no potinho, que ele adora, e o Feijão… bom, com esse ele vai ter que se virar e fazer amizade. 

Mais ou menos um mês depois, recebi uma carta. Quer dizer, ela chegou para a Amália, porque perto do Senhor Carlos mora a avó da amiga dela. Ela estava lá nas férias para uma visita e colocou algo para mim na carta também. Em um pedaço de folheto, tinha uma carta rabiscada. Então, crianças, leiam antes de dormir e nunca se escondam no motor do carro. Boa noite. E acho que logo vocês vão ouvir falar de nós de novo.

“Meu querido irmãozinho,

a vida de um gato de casa é ótima. Agora entendo por que você gosta tanto disso. Minha tigelinha está sempre cheia e até o Feijão é um amigo bem legal. Você era uma companhia melhor, mas fazer o quê. A Senhora Simone até conseguiu eu pudesse dormir à noite na cama. Ela ainda acha que sou um gatinho.

O Senhor Carlos acha que eu vou caçar ratos. O Feijão não quer caçar, então ele conta comigo. Então eu cacei um, trouxe um para ele e soltei dentro de casa. A Dona Simone pulou na mesa e gritou, e o Senhor Carlos tentou pegar o rato usando seu chinelo. Foi uma bagunça danada. Desde então, ninguém mais quis que eu caçasse ratos. Que legal!

Mesmo assim, sinto sua falta aqui. Não tenho com quem aprontar. Hoje à noite vou dar uma voltinha pelo bairro. Todo mundo tem um espreitador escondido debaixo da cama, então seria estranho eu não encontrar nenhum dos nossos por aqui. Depois te mando outra carta ou a gente se liga. A vovó sempre deixa o telefone em cima da mesa, então é fácil pegar.

Se cuida e manda um abraço para o velho Hugo.

Seu irmão Sardento

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